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Ensaio Mitsubishi L200 Strakar: simples evolução

Sempre esteve entre as melhores e a Mitsubishi reclama para o L200 o estatuto de “pick-up” mais vendida face a duros rivais como o Toyota Hilux, Ford Ranger, Isuzu D-Max e Nissan Navara. As novidades apresentadas por Toyota, Ford e Nissan, recebem réplica com esta quinta geração da L200 que surge dez anos depois da última renovação feita a uma das “pick-up” que mais vendeu em Portugal. Questão fundamental: chega esta renovação para encarar os novos Ford Ranger e Nissan Navara? É o que vamos tentar perceber neste ensaio.

O tempo onde as “pick-up” tinham papel relevante nas vendas nacionais já desapareceu há muito… tempo e hoje estes modelos estão fortemente limitados na sua componente de lazer devido aos impostos. De tal forma que o ensaio que fiz à Mistubishi L200 Strakar teve como base a versão “king cab”, ou seja, a variante de três lugares mais favorável em termos de impostos e não a L200 de quatro portas e cinco lugares.

Primeiro sintoma que esta quinta geração é uma simples evolução é conseguir reconhecer, de imediato, a L200. Ninguém poderá dizer que esta não é a pick-up da Mitsubishi, mesmo com a frente renovada e uns retoques de estilo aqui e acolá. Porém, a silhueta e a ideia do modelo de 2006 é a mesma.

Naturalmente que a Mitsubishi realizou várias alterações que não são visíveis, nomeadamente, melhor isolamento acústico e térmico, e uma montagem mais refinada. No interior são visíveis os novos bancos, mais cómodos, e o reforço do equipamento de série, embora um nadinha longe daquilo que alguns rivais oferecem.

No chassis tradicional de longarinas – convirá não esquecer que a base é um carro de trabalho e que é essa a versão mais vendida… – a Mitsubishi usou aço de melhor qualidade e grande rigidez, tendo usado novos processos para aumentar a solidez do chassis. No eixo traseiro, as molas de lâmina foram alongadas e os amortecedores revistos, no eixo dianteiro há uma nova afinação para molas e amortecedores. Tudo na tentativa de fazer dialogar os dois extremos do L200 de forma mais coordenada e, naturalmente, melhorar o comportamento.

Na casa das máquina há muitas novidades, particularmente no que toca aos consumos e emissões. Acredita-se que os impostos sobre estes modelos possam mudar, pelo menos na Europa, e passem a incluir uma componente ambiental. Não sei se serão boas ou más notícias, mas a verdade é que o bloco da L200 Strakar é, agora, diferente.

Todo em alumínio, o motor de 2.4 litros turbodiesel está pensado para oferecer o menor consumo e, sobretudo, as mais baixas emissões. Deitando mão a uma série de técnicas – como o turbo de geometria variável, variação do tempo de abertura das válvulas, por exemplo – a Mitsubishi conseguiu baixar as emissões de CO2 até às 173 gr/km, bem abaixo daquilo que os rivais fazem. Quanto aos consumos, a Mitsubishi anuncia excelente 6,6 l/100 km, praticamente um litro menos que os mais diretos rivais. Tudo isto debitando 180 CV e 429 Nm de binário, ganhos interessantes face ao anterior motor.

Os primeiros momentos ao volante do L200 Strakar são perfeitamente familiares: forte binário a baixa rotação faz-nos chegar depressa à terceira velocidade de uma caixa com seis marchas, lenta mas eficaz, traseira leve que tenta sempre passar à frente – ainda mais esta versão de apenas 3 lugares… – particularmente no modo de tração traseira e a posição de condução típica de um todo-o-terreno. Ou seja, este Mitsuhbishi preenche todos os requisitos típicos deste tipo de veículo.

Mas os primeiros quilómetros ao volante deram outras indicações bem mais interessantes. Primeiro, o excelente controlo que a suspensão e o chassis fazem sobre o rolamento da carroçaria, o que é uma enorme novidade e mais valia no caso do L200. Sem recorrer às soluções da Nissan, a Mitsubishi conseguiu um resultado quase igual.

Depois, a direção já não é tão vaga como anteriormente não necessitando de tanta informação para fazer aquilo que queremos, como manter uma trajetoria sem sobressaltos. A caixa de direção está mais rápida e manobrar a L200 é tarefa muito mais fácil, até porque o diâmetro de viragem é mais curto que a maioria dos rivais. O Mitsubshi L200 deixou de se parecer com um paquiderme sendo muito mais ágil que anteriormente.

Mas há mais! A frente consegue ter mais aderência que anteriormente o que permite andar mais confiante, nomadamente, em piso molhado e em incursões fora de estrada. Neste particular, podemos mesmo adotar um ritmo mais elevado que não corremos o risco de sair de pista de forma ridícula como anteriormente sucedia.

Não tenho a certeza se a Mitsubishi aproveitou para mexer em mais alguns pontos vitais, mas posso dizer que a travagem é agora muito mais suave (mas com mais potência e diminuição das distâncias de travagem) e a embraiagem tem um curso mais longo que suaviza a condução.

Contas feitas, o L200 Strakar está mais fácil de conduzir, o que não quer dizer que é mais eficaz. Porque, naturalmente, a leveza da traseira pode colocar algumas questões e no modo de tração traseira é muito fácil fazer as rodas escorregarem. E em piso molhado tudo é ampliado e fazer algumas “figuras” em rotundas é a coisa mais simples do mundo.

Felizmente que o L200 Strakar está equipado com o sistema “Super Select 4WD” e com o rodar de um botão colocado ao lado do travão de mão, podemos chamar à ação o diferencial central Torsen e ter assim tração integral na proporção 40/60, numa utilização rotineira. Mas isto deve ser usado apenas se a estrada estiver molhada ou piso for degradado, pois neste modo o consumo é maior e o desgaste também, sendo que com duas rodas motrizes tudo é mais suave.

O que não mudou foi o conforto. O L200 é saltitão e o terceiro lugar disponibilizado é tão desconfortável que não se recomenda a ninguém. Particularmente se o caminho for esburacado ou com muitas lombas! Em estrada suave e lisa, as coisas são mais pacíficas, mesmo que se sinta sempre m ligeiro flutuar. Mas perante o “layout” do L200, não há mesmo nada a fazer.

Como carro de trabalho, nada a dizer, pois as suas características são conhecidas e agora reforçadas com a capacidade de carregar mais de uma tonelada de peso na caixa de carga e ser capaz de rebocar impressionantes 4,09 toneladas, o que deixa a concorrência bem longe.

Veredicto

A moda passou, mas como todas as modas, regressará dentro em breve e por isso estamos a assistir a um recrudescer da aposta nas “pick-up” e a renovação do L200 Strakar é a resposta da Mitsubishi aos rivais e a essa necessidade de mais produto. Se procura um carro de lazer, este L200 Strakar sem cabine dupla não o vai satisfazer e se está habituado ao seu jipe confortável e dinâmico, terá de esquecer tudo isso. Claro que ganhará espaço para levar bicicletas, pranchas, tudo e mais alguma coisa, mas terá apenas três lugares e algum desconforto para o terceiro elemento. Claro que no interior, as coisas estão mais agradáveis que anteriormente. Mas não passa de uma “pick-up”. Que mesmo assim me impressionou pelo bom comportamento e pelo razoável conforto, sendo um carro muito bom e agradável de conduzir. Mas, decididamente, fará melhor negócio com um SUV.

José Manuel Costa

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