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Ensaio Renault Megane RS Trophy-R: um carro de corridas com matrícula!

Broopp… Broopppp… vroawwwwwrr, pow, pow ptow… vrooaaaawwwwwrr… iihhhhhh… pow, pow… vroaaawwwwwwww! Música! Uma sinfonia de sons típicos de um carro de corridas com o “hiiiiiii” dos discos de travão quando não estão a ser castigados. Enfim, uma verdadeira delícia que me deixou embriagado de prazer durante os quilómetros que cumpri ao volante do Renault Megane RS Trophy-R. Que automóvel!!!!!

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  • A Favor – Tudo
  • Contra – Nada

Afinal o que é isto? É a terceira versão dos Megane RS mais radicais prontos a bater recordes no Nurburgring; tem uma aparência musculada, sendo um extraordinário automóvel que está limitado a 500 unidades das quais já devem restar poucas. Vá lá… tem um ou dois problemas. O mais evidente é o preço… como hei-de dizer isto… se estava a pensar comprar um Porsche 718 Cayman de base, o dinheiro que juntou não chega para comprar este Renault. Não fique escandalizado, então?! O Megane RS Trophy R custa… ahamm… 81.500 euros! Um Cayman fica por 72.853 euros!

Já agora, tenho de lhe dizer que por este simpático preço compra um… comercial, pois o Megane RS Trophy R só tem dois bancos – excelentes por sinal – e as portas traseiras não têm abertura dos vidros. Pronto, não dá para levar os miúdos à escola nem a sogra nas férias e na bagageira não há chapeleira e a divisão para o habitáculo é uma barra com uma fitas de tecido cruzadas. Lindo!

O que tem de especial este Megane?

E porque já sei que está a perguntar-se “então, afinal o que é que o Megane RS Trophy R tem de tão especial para custar tanto dinheiro?” Meus amigos… muita coisa!

A palavra chave é… leveza! Colin Chapmann e Jean Redelé, entre outros, sempre disseram que a fórmula mágica para um carro ser rápido, ágil e eficaz residia no baixo peso. Ora, os homens da Renault Sport levaram as coisas a peito e “atacaram” as gorduras supérfluas do Megane.

Contas feitas, o Megane RS emagreceu 130 kgs, despindo-se de muitas coisas que existiam no anterior modelo e no atual Megane RS. Exemplos?

A direção às quatro rodas… foi pela janela! O Megane RS Trophy R não tem, repito, não tem direção às quatro rodas, as únicas que mexem são as rodas da frente. Por outro lado, o carro só é vendido com caixa manual de 6 velocidades. E porque este é mesmo um carro de corridas com chapa de matrícula, a Renault Sport decidiu pedir ajuda a fornecedores habituados a trabalhos duros.

A Ohlins, reputada marca sueca de amortecedores de competição, desenhou e construiu os conjuntos mola amortecedor com ajuste manual (ah! pois é… pode ajustar a dureza da suspensão). Para a travagem, foi escolhida a Brembo que fornece conjuntos em aço e em carbono cerâmica de dimensões impressionantes e com uma eficácia absolutamente brutal. Os bancos são fornecidos pela Sabelt e podem ter cintos de competição da mesma marca, enquanto os pneus vêm da Bridgestone, uns S007 semi-slicks e o escape é feito pela Akrapovic. Wow!

E o motor é das corridas?

Er… sim e não! Debaixo do capô está o mesmo bloco de 4 cilindros turbo com 1.8 litros, conhecido do Megane RS e do Alpine A110. Como disse, a caixa é uma unidade manual de 6 velocidades e tem um diferencial autoblocante muito agressivo, como deve ser um autoblocante de um carro de competição.

Não, não me enganei! O Megane RS Trophy R é um carro de competição com placas de matrícula! Não tenha dúvida absolutamente nenhuma sobre esta minha afirmação, porque tive a felicidade de cumprir mais de 300 km ao volante deste Renault de 81 mil euros em estradas regionais e municipais. Acreditem que a injeção de endorfinas é absolutamente avassaladora.

Desde já quero dizer-lhe que tive a felicidade de conduzir todos os Megane RS, mesmo os exclusivos R26.R e 275 Trophy R. Por isso posso dizer-lhe que nenhum deles é capaz de rivalizar com o Megane Trophy R, apesar da cartilha da Renault Sport ser a mesma: baixo peso e escolha dos ingredientes certos, mas desta feita a loucura e o foco na condução foram muito mais longe.

E como é andar com um Megane RS Trophy?

O Megane RS Trophy R não deixa de “esgravatar” para encontrar aderência quando arrancamos a fundo, mas rapidamente o autoblocante Torsen se encarrega do assunto e o carro salta para diante como um felino, encurtando qualquer reta de forma assinalável. A poderosa travagem, que quase nos faz saltar os olhos das órbitas, deixa o eixo traseiro leve o suficiente para rodar e ajudar o autoblocante a atirar-nos para diante. O sacão que o autoblocante provoca é violento e faz lembrar tanto, mas tanto, os carros de competição. 

A aderência do eixo dianteiro é absolutamente delirante e o autoblocante ajuda a que à saída das curvas, o Megane seja, literalmente, atirado para diante, sem que tenhamos uma reação violenta no volante. Se desligar o controlo de estabilidade, deixo-lhe aqui uma palavra de cautela: com as ajudas desligadas, o Megane RS fica ainda mais exigente e se o piso estiver húmido… não desligue a eletrónica. Opte pelo modo Comfort e verá que o Megane RS Trophy R até é simpático.

E como é o interior? Radical?

Oh yeah!!! Lá dentro, apesar da luta feroz contra o excesso de peso, há um sistema de som razoável, climatização com ar condicionado, os vidros são elétricos e até há Apple CarPlay e Android Auto. Ou seja, este carro de corridas com chapas de matrícula sabe se comportar como um Megane normal, o que é uma boa noticia. Especialmente para quem não quer estar sempre no fio da navalha. Não espere, porém, que o carro seja suave no modo Comfort, ou que tenha espaço para levar as compras do mês ou passear a sogra. Porque, como lhe disse acima, não há bancos traseiros e a bagageira é mais decorativa que outra coisa. 

E, já agora, o carro não é confortável, pois não é um Megane RS e não um Megane dCi!

O Megane RS Trophy R exige que tenhamos todos os sentidos alertas quando subimos na escala dos modos de condução: o Comfort é simples e apenas a dureza do carro nos incomoda um nadinha; o Normal é… normal, o Sport já começa a exigir mais de nós e no Race… a coisa fica mais séria.

Curiosamente, o Megane RS Trophy R não é muito mais duro que o Megane RS Trophy, a não ser que mexamos na regulação manual dos amortecedores Ohlins. Posso dizer-lhe que os amortecedores da frente têm 20 oportunidades de regulação (em gíria são 20 “cliques”) os traseiros ficam-se pelas 9 regulações (9 “cliques”) e que o “meu” Megane estava com uma afinação um nadinha para o duro com 10 “cliques” à frente. Portanto, o conforto não é a prioridade do Megane RS Trophy R, nem isso se esperava de um carro de competição, perdão, de um carro desportivo.

Vale a pena comprar um?

Nos modos Sport e Race, o concerto de “música” mecânica é absolutamente deliciosa: os guinchos dos travões a baixa velocidade, o ralenti borbulhante, os rateres a baixa velocidade no tráfego ou quando puxamos pelo motor – basta levantar o pé e… “pow, pow, proop, pow” – e a cada passagem de caixa. Tudo isto majorado pela muito mais suave insonorização que deixa chegar até nós o barulho do motor, do escape e do rolamento dos enormes Bridgestone.

Enfim, devolver o Megane RS Trophy à Renault foi difícil e emocionei-me quando o deixei estacionado na garagem da sede da marca. Emocionei-me porque adorava ter um, mas sobretudo, porque estava a virar as costas a um dos últimos carros desportivos compactos, à séria! Não é normal a Renault Sport ter realizado, tão cedo, um Megane RS Trophy R, mas eu sei porquê: as emissões estão a apertar e o racional que permite fazer um carro destes está a desaparecer, especialmente, quando a Renault acaba de dizer que o Megane vai ser um carro elétrico. 

Este é um verdadeiro carro desportivo, é um carro de corridas com chapas de matrícula… é o último moicano! Por isso as lágrimas quiseram bailar nos meus olhos, pois não voltarei a conduzir o Megane RS Trophy R e tenho a certeza que este terá sido o último de uma geração de carros desportivos. 

O que eu penso do Megane RS Trophy R

Infelizmente, o futuro dos desportivos não vai ser híbrido ou elétrico, pois nenhum deles é capaz de oferecer um carro com menos de 1300 kgs para 300 CV. Nenhum deles oferecerá o concerto de sons mecânicos tão deliciosos que fazem parte da experiência ao volante do Megane RS Trophy R. Enfim, nenhum deles conseguirá oferecer o prazer de condução que este Renault nos oferece.

Por isso… obrigado Renault Sport por este Megane RS Trophy R! E deixem-me dizer-vos que os 81.500 euros deste Megane são uma pechincha! Porque para mim – e podem atirar-me pedras que não me importo – este Megane vale mais que um 718 Cayman! 

Ficha técnica

Motor

Tipo: 4 cilindros em linha, injeção direta e turbo

Cilindrada (cm3): 1798

Diâmetro x Curso (mm): 79,7 x 90,1

Potência máxima (CV/rpm): 300/6000

Binário máximo (Nm/rpm): 400/3200

Transmissão: Tração dianteira, caixa manual de 6 velocidades

Direção: pinhão e cremalheira, com assistência elétrica

Suspensão (ft/tr): Independente, McPherson; eixo de torção

Travões (fr/tr): Discos ventilados

Prestações e consumos

Aceleração 0-100 km/h (s): 5,4

Velocidade máxima (km/h): 260

Consumos extra-urb./urbano/misto (l/100 km): – / – /8,3

Emissões CO2 (gr/km): 187

Dimensões e pesos

Comprimento/Largura/Altura (mm): 4364/1875/1428

Distância entre eixos (mm): 2672

Largura de vias (fr/tr mm): 1631/1609

Peso (kg): 1300

Capacidade da bagageira (l): 294

Deposito de combustível (l): 50

Pneus (fr/tr): 245/35 ZR19

Preço (Euros): 81.500