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Renaulution é a estratégia que vai reorientar a Renault para a criação de valor

O Autoblogue tinha revelado ontem grande parte do plano estratégico que Luca de Meo, o CEO do Grupo Renault apresentou esta manhã. As mudanças são… enormes!

A estratégia é clara: deixar de perseguir o volume e criar valor e, sobretudo, lucro. As estratégias anteriores não redundaram em lucro e Luca de Meo foi claro em apontar os últimos anos como pouco saudáveis para a companhia.

Como expetável, o novo CEO do Grupo Renault partilhou o palco com Clotilde Delbos, a diretora financeira do grupo que, durante o período pós-Carlos Ghosn e pós Bollore, suportou a casa francesa. Justíssimo o reconhecimento dado por de Meo, que lhe entregou, igualmente, a apresentação da nova marca de mobilidade, Mobilize.

O plano estratégico Renaulution gira em torno de três fases laçadas em paralelo: Ressurreição, Renovação, Revolução. 

A primeira fase estender-se-á até 2023 e está absolutamente concentrada na recuperação da margem de lucro operacional e na criação de liquidez. Soube-se nesta conferência de imprensa, pela voz de Clotilde Delbos, que a Renault tem no banco mais de 16 mil milhões de euros e continua com amplas linhas de crédito disponíveis.

Ou seja, o “cash flow” é suficiente para os investimentos e para acomodar as perdas, esperando que rapidamente haja um “turnaround”. 

Luca de Meo, CEO Grupo Renault

Sendo que Luca de Meo quer que o “brake even point”, ou seja, o ponto quando o negócio paga as despesas e começa a dar lucro, será reduzido até 30%. Ou seja, o Grupo Renault terá de ser rentável com menos 30% de custos até 2025.

A segunda fase manter-se-á até 2025, estará focada na renovação e no enriquecimento das gamas que trazem rentabilidade para as diversas marcas (Renault, Dacia, Lada e Alpine) e aqui há muitas novidades.

Finalmente, chegará a revolução, que começará em 2025. Irá transformar o modelo económico do Grupo Renault. Que vai estar virado para a tecnologia, novas energias e mobilidade. Transformará o grupo francês num precursor na cadeia de valor das novas mobilidades.

Segundo Luca de Meo, o plano agora apresentado irá restaurar a competitividade do Grupo Renault, perdida nos últimos tempos.

Na perspetiva do CEO do Grupo Renault, o plano estratégico Renaulution vai melhorar a eficácia da engenharia e da produção. Como? Reduzindo os custos ficos e melhorando de forma significativa os custos variáveis em todas as geografias onde está presente.

Por outro lado, como fez questão de frisar Luca de Meo, há que retirar partido de todos os ativos industriais do grupo. Ou seja, para já, não haverá encerramento de fábricas ou redução de força de trabalho, para lá daquilo que está inscrito no plano de corte de custos “2o20” que é de 3 mil milhões de euros. 

Clotilde Delbos, CFO Grupo Renault

Plano esse que terá efeitos já este ano com 2 mil milhões de cortes, passando a 2,5 mil milhões em 2023 e 3 mil milhões em 2025. Portanto, a atual situação poderá mudar nos próximos anos.

Por outro lado, o plano irá apoiar-se na Aliança para aumentar a capacidade de desenvolvimento de produtos, atividades e tecnologias. 

O Grupo Renault vai acelerar os serviços de mobilidade, os serviços relativos à energia e os relativos aos dados. 

Finalmente, terá, rapidamente, que melhorar a rentabilidade através de quatro diferentes unidades de negócio. Estas unidades terão por base as marcas responsáveis pelas suas atividades e centradas nos clientes e nos mercados onde atuam.

Para tudo isto funcionar, o Grupo Renault terá uma nova organização que tem como lema “Valor e não Volume” e onde a engenharia terá primazia, no sentido de encontrar competitividade, redução de custos de desenvolvimento e industrialização e prazos encurtados (significativamente!) de chegada ao mercado. 

Nesta nova organização, cada marca é responsável pela sua própria rentabilidade. Ou seja, a individualização da responsabilidade será maior, mas com as sinergias do grupo a funcionarem em maior escala.

Assim sendo, com esta nova organização, o centro está no valor e não no volume – e isso Luca de Meo deixou claro, ao alfinetar de forma evidente as estratégias de Ghosn e de Bollore dizendo que as estratégias anteriores conduziram à atual situação – pelo que o seu desempenho passará a ser medido através da margem de lucro operacional, pela criação de liquidez e pelo retorno dos investimentos.

Deixam de ser importantes para esta aferição de desempenho as quotas de mercado ou o volume de vendas. Uma mudança radical face ao que foram os anos de governação de Carlos Ghosn.

Por tudo isto, o Grupo Renault passa a ter novos objetivos financeiros.

Desde logo, até 2023, libertar uma margem de lucro operacional de 3% (hoje está em valores negativos) e 3 mil milhões de euros em “cash flow” livre acumulado entre 2021 e 2023. Ou seja, dinheiro no banco depois de deduzidos os impostos e os juros do serviço de dívida.

Serão reduzidos os investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Esse investimento não passará dos 8% do volume de negócios. Isto, como frisou Clotilde Delbos, só é possível porque o grupo investiu forte no setor da pesquisa &desenvolvimento no passado. “Algum desse investimento mal direcionado, mas ainda assim, grande parte do que necessitamos para o futuro está feito” comentou a diretora financeira do grupo.

Ainda segundo esta visão estratégica, o Grupo Renault terá de atingir, até 2025, um lucro operacional de 5% e mais de 6 mil milhões de euros de “cash flow” livre. E terá de ter um ROCE (retorno do capital investido e que, no fundo, divide o EBIT ou os lucros antes de impostos e juros pelo capital investido e dá um rácio que permite analisar a eficácia financeira de uma empresa) com um crescimento de 15 pontos face a 2019.

Ou seja, Luca de Meo quer que o retorno do investimento seja muito maior do que até agora em termos de EBIT, tornando, assim, a empresa mais interessante ara os investidores.

Enfim, Luca de Meo acredita que o plano “Renaulution” vai assegurar a rentabilidade do grupo para o futuro, respeitando o compromisso de neutralidade carbónica já em 2025.

“O plano Renaulution consiste em fazer orientar toda a empresa dos volumes para a criação de valor. Mais do que uma recuperação, trata-se de uma transformação profunda do nosso modelo de empresa. Estabelecemos bases sólidas e sãs, racionalizámos as nossas operações, começando na engenharia, ajustámos a dimensão onde era necessário, e reafectámos os recursos para os produtos e as tecnologias com forte potencial. Esta melhoria da eficácia irá alimentar a nossa futura gama de produtos: tecnológicas, eletrificadas e competitivas. E isto irá alimentar a força das nossas marcas, cada uma com o seu território bem claro e diferenciado e responsáveis pela sua rentabilidade e pela satisfação dos seus clientes. Passaremos de uma empresa automóvel que utiliza a tecnologia, a uma empresa tecnológica que utiliza os automóveis, na qual, pelo menos 20% das receitas, até 2030, terão origem nos serviços, dos dados, e do comércio de energia. Iremos conseguir, com passos seguros, tendo por detrás esta grande empresa, as suas competências e a implicação dos seus colaboradores. O Renaulution é um plano estratégico ‘feito dentro de portas’, que iremos desmultiplicar e realizar da mesma forma: coletivamente.” Palavras de Luca de Meo, o italiano que agora manda no Grupo Renault.

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