Desporto

Dakar 2021 – Etapa 12: fim de festa com Peterhansel e Benavides a celebraram a vitória

Grande aplauso terá de ser endereçado à ASO que conseguiu realizar um evento desta magnitude no meio de uma pandemia em constante aceleração. 

Terminada a maratona, são vários os destaques, entre eles uma infeliz morte de um piloto das motos que estava a caminho de casa num avião sanitário. Os problemas físicos provocados por quedas em Toby Price e Joan Barreda Bort.

A excelência do trabalho feito por Ruben Faria como responsável pela equipa Honda, gerou mais um vencedor face ao “assalto” da KTM. Os portugueses estiveram em bom plano, embora fique evidente que há que encontrar um projeto mais sustentado para que o nome Portugal anda nas bocas do mundo dos Rally Raid.

A última etapa do Dakar 2021 Arábia Saudita ligava Yanbu a Jeddah, uma especial com 200 km contra o cronómetro, os derradeiros metros de uma prova que conheceu muita animação nas motos. Honda aos vencedores, glória aos vencidos!

Motos: Kevin Benavides ganha (finalmente!) e dá à Honda segunda vitória consecutiva

O nariz ferido, as lágrimas a correrem pela face, os abraços dos adversários e a festa da Honda Racing capitaneada por Ruben Faria, sublinharam uma vitória de Kevin Benavides.

Literalmente, foi preciso sangue, suor e lágrimas para o piloto argentino reclamar a primeira vitória no Dakar, numa das edições mais renhidas e conturbadas de sempre. Kevin Benavides é o primeiro sul-americano a ganhar o Dakar, num domínio Honda com uma saborosa dobradinha graças a Ricky Brabec. A primeira desde 1987 com Cyril Neveu e Edi Orioli.

O argentino estreou-se em 2016 no Dakar. O 4º lugar não teve sucessão no ano seguinte devido a uma lesão que o afastou da prova. Regressou em força em 2018 com um segundo lugar. Depois foi uma trajetória descendente com um 5º lugar em 2019 e um pálido 16º posto em 2020. 

Ganhou três etapas em 2021, caiu na pista e para fora dos 10 melhores no segundo dia, recuperou, andou sempre nos cinco melhores ao longo da prova e com tantas reviravoltas na classificação, acabou por ficar com o prémio maior. 

A Honda dominou com 9 vitórias em 12 etapas mais o prólogo, repetindo a vitória de 2020 e prolongando o jejum da KTM no Dakar.

Para a Yamaha, o final de prova foi dramático, pois juntou infortúnio ao insulto e viu o motor da moto de Adrien van Beveren partir a 100 km do final. Ou seja, não existiram Yamaha oficiais no final da prova. Poderá ser o final da participação da Yamaha no Dakar ou razões mais que suficientes para rever o projeto e entregá-lo a alguém que perceba do assunto. Olhem para a Honda e vejam como conseguiram a vitória em 2020 depois de um jejum de 31 anos e domínio absoluto da KTM durante 18 anos. O nome Ruben Faria e o de Hélder Rodrigues dizem alguma coisa? A Yamaha não vence desde 1998.

Ricky Brabec colocou um ponto final na edição de 2021 com uma vitória. Não chegou para revalidar o sucesso de 2020, é verdade, mas o norte americano tem de estar feliz com o segundo lugar após uma corrida que como ele apelidou mais parecia um “elástico” pois tão depressa estava na frente como afundado na classificação. 

Hoje ganhou 2m17s a Benavides, mas o argentino tinha tudo controlado e o americano ficou com o segundo lugar da geral a 4m46s.

Para amachucar um pouco mais a moral dos homens da KTM, Brabec roubou o segundo lugar final a Sam Sunderland, apenas 12º na tirada, perdendo 13m07s para o seu adversário. 

Matthias Walkner fechou o Top 3 da etapa a 4m13s de Brabec, seguido do rápido estreante norte americano Skyler Howes, também aos comandos de uma KTM. Ele que passou pela liderança da prova. O Top 5 ficou fechado com outro estreante, este na equipa oficial da KTM, Daniel Sanders.

Na derradeira etapa, Joaquim Rodrigues levou a Hero a mais um Top 10, ele que carregou o pesado fardo de homenagear o seu cunhado Paulo Gonçalves. Fê-lo da melhor maneira e não fosse uma troca de motor, alguns percalços e a emoção poderosíssima na etapa que assinalava o aniversário da morte de Gonçalves, teria ficado no Top 10.

Sebastian Buhler (Hero) ficou no 11º lugar da etapa, com Rui Gonçalves (Sherco) a completar a sua dura estreia no Dakar com um 13º lugar na tirada final.

Kevin Benavides (Honda) ganhou, Ricky Brabec (Honda) foi segundo e Sam Sunderland (KTM) fechou o pódio. Daniel Sanders (KTM) e Skyler Howes (KTM) cumpriram a estreia com um 4 e um 5º lugar, respetivamente.

O melhor piloto da Sherco foi Lorenzo Santolino, no 6º posto, seguido de Pablo Quintanilha, o mais bem posicionado da equipa Husqvarna, na sétima posição. Stefan Svitko (KTM) reclamou a oitava posição, seguido de Martin Michek (KTM) e Matthias Walkner (KTM).

Apesar de todos os contratempos, Joaquim Rodrigues ganhou uma posição na etapa final e termina o Dakar num excelente 11º lugar – que seria 10º sem a penalização de 37 minutos – enquanto o seu colega de equipa na Hero, Sebastien Buhler, fechou o Dakar 2011 na 14º posição. Rui Gonçalves, na estreia com a Sherco e no Dakar, com um nariz maltratado, chegou ao final num excelente 19º lugar.

Terminaram 49 pilotos (Salman Mohamed Humood Fahran, numa Husqvarna foi o último), com a vitória nos pilotos sem assistência a ficar nas mãos de Arunas Gelazninkas, aos comandos de uma KTM.

Nota final triste nas motos, com a morte de Pierre Cherpin, piloto de uma Husqvarna. Francês, gestor de empresas, estava no seu quarto Dakar inscrito entre os que não levavam assistência. Nas três participações anteriores, foi 103º em 2009, 84º em 2012 e abandonou em 2015. Regressou á prova seis anos para sofrer uma queda violenta na 7ª etapa. Foi encontrado inconsciente, levado para o hospital e operado de urgência a um severo trauma na cabeça.

Mantido em coma induzido, foi declarado apto para viajar em avião sanitário de Jeddah para Lille, sua terra natal, mas não resistiu e faleceu na viagem. 

Quad: outra vitória argentina para Manuel Andujar

A diferença era enorme e apenas um enorme azar poderia retirar a vitória a Manuel Andujar. O argentino aproveitou bem a malapata dos outros para recamar esta saborosa vitória. Andujar estreou-se em 2018 com um 29º lugar à geral, para ser 5º em 2019 e 4º em 2020. 

A vitória na especial foi para o americano nascido na Argentina, Pablo Copetti, mas os 23 segundos ganhos não arranharam a robusta vantagem de Manuel Andujar. Até porque Giovanni Enrico e Italo Pedemonte encararam a derradeira etapa com muitas cautelas.

Contas feitas, Manuel Andujar ganhou com mais de 33 minutos face a Giovanni Enrico e 3h00m58s para Pablo Copetti. Foi a sétima vitória na categoria para a Argentina e a segunda de um piloto das Pampas numa categoria do Dakar. 

Carros: Peterhansel regista recordista 14º vitória no Dakar

Se há um “Senhor Le Mans”, no todo terreno, Stephane Peterhansel ganhou, merecidamente, o título de “Senhor Dakar”. 

Frio, indiferente aos azares que aqui e ali apoquentaram o piloto do Mini JCW Buggy, perfeito taticamente – atacou na etapa a seguir ao dia de descanso e deu estocada final na discussão da prova – e ainda muito rápido apesar dos 55 anos de idade. Este é o retrato do vencedor do Dakar 2021, Stephane Peterhansel.

Começou a ganhar na prova imaginada por Thierry Sabine em 1991, nas motos, com uma Yamaha. Tinha 25 anos. Venceu três provas de enfiada (1991, 1992 e 1993) voltou a ganhar em 1995, 1997 e 1998. Abandonou as motos com seis vitórias e não demorou muito para começar a ganhar nos carros. Com um Mitsubishi, Peterhansel venceu o seu primeiro Dakar nos carros em 2004 tendo a seu lado Jean-Paul Cottret. Uma dupla de enorme sucesso!

Depois voltou a vencer em 2005, 2007 (prova com saída de Lisboa), 2012, 2013, 2016 e 2017. Rubrica, assim, a sétima vitória nos carros, um recorde impressionante de 14 sucessos no Dakar no espaço de 30 anos de competição. Fechou um ciclo entre a primeira vitória em 1991 e esta em 2021. Fantástico!

A derradeira especial foi ganha por um desapontado Carlos Sainz. Apesar dos seus 58 anos, o espanhol continua com o mesmo “mau feitio” quando perde e a edição de 2021 do Dakar esbofeteou-o demasiadas vezes. 

Ou com erros de navegação de Lucas Cruz – nem queremos imaginar o que ele ouviu nestes 15 dias – ou com furos ou ainda com problemas mecânicos resolvidos pelo seu navegador, o espanhol não conseguiu estar na luta pela vitória.

Hoje ganhou a etapa, a terceira vitória em 2020 e a 40ª no Dakar, insuficiente para mudar o que quer que fosse. Um terceiro lugar para o Campeão do Mundo de Ralis, triplo vencedor do Dakar.

Venceu seis etapas (!), andou sempre a fundo, mas os furos na Toyota Hilux V8 impediram que o três vezes vencedor do Dakar juntasse uma quarta vitória ao palmarés do piloto de 50 anos. Este foi o Dakar de Nasser Al-Attiyah, segundo na especial e segundo na classificação final.

Pódio dominado pelos “velhotes”, pois juntos perfaziam 153 anos! Sem contar com os navegadores, claro.

Contas feitas, vitória para Stephane Peterhansel, acompanhado por Edouard Boulanger (depois de ter feito equipa com Paulo Fiúza em 2020) no Mini JCW Buggy a gasóleo e com tração traseira.

Boulanger tem uma experiência de 15 anos de competição como navegador. Ficou com o lugar depois de Peterhansel ter esquecido a ideia de ter a seu lado a esposa, a piloto de motos alemã Andrea Mayer. Boulanger foi piloto de motos, foi o “mapman” da KTM e da Toyota. Venceu o Dakar, mas na sombra, sendo um especialista em navegação.

Ganhou pela primeira vez o Dakar e confessou antes da prova começar que “nos testes que fomos fazendo, percebi que fazia tudo devagar demais! É que o Stephane não conduz ao um rimo normal! É mesmo muito rápido e tive de me adptar.”

O pódio ficou fechado com Nasser Al-Attiyha e Mattieu Baumel (Toyota Hilux V8) e Carlos Sainz com Lucas Cruz (Mini JCW Buggy).

Depois ficaram Jakub Przygonski e Timo Gottschalk (Toyota Hilix V8) e Nani Roma com Alexandre Winocq, ao volante do novíssimo BRX (Bahrain Rally Xtreme) Hunter – desenhado por Ian Callum e desenvolvido e fabricado pela Prodrive – que lhe deu muitas dores de cabeça. 

A fechar o Top 10 ficaram Khalid Al Qassimi e Xavier Penseri (Peugeot 3008 DKR), Vladimir Vasilyev e Dmitro Tsyro (Mini JCW 4×4), Giniel de Villiers e Alex Haro Bravo (Toyota Hilux V8), Martin Prokop e Victor Chytka (Ford Ranger) e Cyril Despres e Michael Horn (Peugeot 3008 DKR).

Christian Lavieille e Jean Pierra Garcin não conseguiram o objetivo final da pequena equipa MD Rallye Sport com os Buggy Optimus de Antoine Morel, ficar nos 10 primeiros.

Ricardo Porém, ao volante do Borgward BX7 Evo da equipa oficial da marca alemã com capitais chineses, conheceu uma prova difícil e cheia de problemas. Na última etapa, o piloto português, acompanhado por Jorge Marques (depois do seu irmão Manuel não ter podido estar na Arábia Saudita no banco do lado direito), terminou a etapa no 26º lugar, ganhando uma posição para consolidar a sua presença no Top 20. Foi 19º da geral a 8h13m12s.

Filipe Palmeiro esteve no banco do lado direito da Toyoya Hilux V8 de Benediktas Vanagas, piloto lituano, e depois do 19º lugar na etapa final do Dakar 2021, terminou a prova no 12º lugar da geral. José Marques, ao lado de Gibtas Petrus, outro lituano, terminou o Dakar 2021 em 27º da geral.

Lightweight Vehicle: “Chaleco” Lopez Contardo venceu entre os SSV

Não foi fácil, mas as constantes alterações devido aos problemas mecânicos dos adversários e uma resiliência impressionante, Francisco “Chaleco” Lopez Contardo, acompanhado por Juan Pablo Latrach Vinagre, levou o seu Can Am, assistido pela equipa South Racing, à vitória entre os Lightweight Vehicle.

Na etapa, a vitória foi para Kris Meeke, finalmente sem problemas no PH Sport, ganhando 3m15s ao segundo classificado, o brasileiro Reinaldo Varela acompanhado por Maykel Justo. Foi a segunda vitória do ano para o piloto de ralis.

O terceiro foi Michal Goczal na companhia de Szymon Gospodarczyk. 

Na especial e consagração, Lopez ficou no 12º lugar, mas Austin Jones e Aron Domzala não fizeram muito melhor, tentando chegar ao final sem percalços.

O americano Austin Jones ficou no segundo lugar da geral a 17m23s de “Chaleco” Lopez, enquanto que Aron Domzala ficou com o terceiro lugar a 51m53s do vencedor.

Lourenço Rosa e Joaquim Dias levaram o seu Can Am até ao 15º lugar da geral, penalizado nas últimas etapas com alguns problemas. Na derradeira etapa da prova, foi apenas 29ª classificado. Rui Carneiro, acompanhado de Filipe Serra, terminou o Dakar 2021 em 25º lugar.

Camiões: Kamaz sem surpresa

A vitória de Martin Macik na derradeira etapa do Dakar 2021, não preocupou sobremaneira os homens da Kamaz. O vencedor da prova, Dmitry Sotnikov, ficou em segundo da etapa a… 4 segundos de Macik e ofereceu á Kamaz a 18º vitória no Dakar. 

Atrás de Sotnikov na especial ficou Shibalov. Aliaksei Vishneuski voltou a intrometer-se entre os Kamaz com o seu MAZ, ficando na frente de Mardeev e Karginov. Ales Loprais levou o Praga ao sétimo lugar da etapa.

Sotnikov ganhou pela primeira vez, sendo o sétimo piloto da Kamaz a ganhar o Dakar, depois de Moskovskikh, Chagin, Kabirov, Nikolaev, Karginov e Mardeev. Com 34 anos e nascido na zona onde está a sede da Kamaz, Dmitry Sotnikov estreou-se no Dakar em 2014, tendo sido segundo em 2017 e 2019. Lado a lado com Ruslan Akhadeev (navegador) e Ilgiz Akhmetzianov (mecânico), ganhou o Dakar 2021.

Anton Shibalov foi segundo da geral, seguido de Airat Mardeev, um pódio totalmente Kamaz. O Top 5 ficou fechado com Martin Macik (Iveco) e Ales Loprais (Praga).

Para fechar a classificação dos 10 primeiros, Aleaksei Vishneuski (MAZ), Andrey Karginov (Kamaz), Martin van der Brink (Renault C460), Ignacio Casale (Tatra) e Martin Soltys (Tatra).

Clássicos Dakar: Sunhill Buggy ganha prova dos clássicos

Marc Douton e Emilien Etienne levaram à vitória um Sunhill Buggy. Um carro que veio de 1979 para ganhar. São 42 anos de história de um carro desenhado por Yves Sunhill. Que foi pilotado pelo seu criador, lado a lado com Jean Paul Sevin na primeira edição do Paris Dakar, em 1979. O carro andou bem, mas foi forçado a abandonar no Niger, expondo algumas fragilidades próprias de um carro novo e pensado para uma prova… desconhecida.

O carro esteve na posse de um expatriado nigeriano em França, tendo sido exibido em várias exposições sobre as origens do Dakar, estando agora nas mãos de Marc Douton, tendo sido restaurado para esta neófita edição do Dakar Classics.

O segundo classificado foi o espanhol Juan Donatiu e Pere Setrrat Puig, ao volante de um Mitsubishi Pajero V6, fechando o pódio o camião Renault de Lilian Harichoury, Luc Fertin e Laurent Correia. 

A réplica do Porsche 911 SC 4×4 que ganhou o Dakar em 1984 com René Metge, construída na Bélgica por Steophane Henrad, comprada pela norte americana Amy Lerner dias antes da prova começar (não viu o carro até chegar à Arábia Saudita), ficou no 15º lugar. Terminaram 23 equipas.