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Carlos Tavares CEO da Stellantis: “fusão PSA e FCA não foi uma manobra defensiva”

Para a Stellantis, foi desenhado um plano estratégico totalmente novo, conferindo mais agressividade ao grupo e mostrando que a inovação não se limita às “startup”.

Numa entrevista exclusiva à revista Automotive News, o CEO da Stellantis refere que trabalhou muitos meses ara montar a estratégia e a equipa de gestão.

O resultado da fusão entre a PSA e a FCA é uma verdadeira babilónia que mistura culturas muito diferentes e as operações de 14 marcas diferentes dos dois lados do oceano. Ainda por cima no meio de uma pandemia.

Carlos Tavares deixa claro que as duas empresas agora unidas numa só “não estavam em crise, pois tinham uma robusta situação financeira, operavam de forma correta e criavam valor, pelo que não há nenhuma crise nesta fusão.”

Para o português, tudo se resume “a duas empresas que entenderam que depois de resolverem os seus problemas, poderiam responder muito melhor aos desafios do futuro unidas que sozinhas. Isso mostra um elevado nível de maturidade.”

Isso não quer dizer que as duas empresas não pudessem seguir sozinhas. “Ambas perceberam que depois de terem recuperado os seus negócios, podiam seguir sozinhas, mas que seria muito mais complicado face ao que se adivinha.”

Quanto à equipa executiva da Stellantis, Carlos Tavares diz que é um exercício de equilíbrio entre “duas famílias” e deixa claro que “a fusão não foi uma manobra defensiva.”

Tudo porque o português entende que “não se trata de nos protegermos do que ai vem, mas ter a capacidade de ser ofensivo fazendo coisas inovadoras, diferentes do que estamos habituados e que irá, acredito, surpreender os consumidores.”

Carlos Tavares tem como objetivo liderar uma empresa dinâmica que leve em linha de conta os contributos da nova geração de colaboradores das equipas de estratégia.

O português de 62 anos tem planos para visitar, nas próximas semanas, os centros operacionais em Itália e nos EUA. Mas antes disso, vai ter reuniões com as equipas internas para que lhe possam colocar questões e ansiedades que queiram ver satisfeitas. Depois disso e das visitas, Tavares vai conhecer a rede norte americana.

Dos planos macro de Carlos Tavares faz parte a (aprofundada) globalização da Jeep. “A direção da Jeep já está estabelecida. É uma marca que não tem qualquer problema de visão ou direcionamento. Apenas precisa de apoio para continuar lucrativa. Como dizem os americanos ‘se não está estragado, não tentes arranjar’. Isso aplica-se de forma perfeita á Jeep.”

O programa de corte de custo de 5 mil milhões de euros e maior do que antes da fusão, “porque as pessoas de todas as áreas trouxeram tantas ideias que só melhoraram o projeto inicial.”

Diz o CEO da Stellantis que “nunca pedi mais ou um número maior. Disse-lhes apenas ‘malta, vamos deixá-los fazer o seu trabalho antes de andarmos aqui com números’. Mas eles vieram ter comigo e disseram ‘bom, temos um problema… as pessoas estão a trabalhar tão bem em conjunto que já têm uma montanha de ideias. E não lhes podemos dizer que não, pois são tudo ideias muito boas!’”

A maior poupança vem das sinergias, através da “utilização inteligente de componentes comuns, no sentido de termos uma posição negocial com os fornecedores muito mais favorável.”

Quanto à eletrificação, que todos sabem não ser o prato favorito de Carlos Tavares, o CEO da Stellantis. Porém, o português sabe que é inevitável esse caminho. E por isso diz que deposita grande fé nos executivos norte americanos para libertar mais eletrificação nos EUA. Isto porque a FCA tinha sérios problemas nesta área.

A Stellantis pode ajudar nesta área, com Carlos Tavares a dizer que “estamos aqui para apoiar e estamos aqui para contribuir para a melhoria da qualidade de vida da sociedade norte-americana.”

Como sempre, o patrão da Stellantis tem a porta do gabinete aberta. “Se eles (responsáveis de zona) quiserem fazer uma significativa alocação de recursos numa qualquer área, basta vir ter connosco ao comité executivo. Vamos discutir o projeto e decidir o que tivermos de decidir. Porém, sem nunca esquecer que quem faz aa pessoas que fazem a proposta, são as pessoas que conhecem bem o mercado!” 

Foi assim que Carlos Tavares conseguiu inverter a situação complicada do Grupo PSA e que deu a volta a um problema chamado Opel. Tudo de forma rápida, limpa e sem oposição significativa. 

O português trabalha de forma discreta, mas sibilina com precisão impressionante. Comete erros como qualquer humano e tem na teimosia uma característica interessante. Agora, aos comandos de um transatlântico, veremos o que é capaz de fazer Carlos Tavares.

Carlos Tavares entende que menos é mais e que ser o maior do mundo em volume de produção não é o principal. Importante é ter custos muito controlados e uma margem de lucro operacional superior. Tudo está pronto e se Carlos Tavares e a sua equipa levam já meses de trabalho, os próximos dias vão ser frenéticos e acreditamos que alguns vão ter dificuldade em acompanhar o ritmo do sexagenário português que adora a competição e é habitual participante em ralis de regularidade histórica, depois dos seus 62 anos e da saída da Aliança Renault Nissan Mitsubishi terem acabado com a sua “carreira” nos monolugares.