Desporto

Campeonato de Portugal de Ralis: calendário encurtado e ausências que levantam questões

Deixando, desde já, claro que não é fácil estar dentro dos “sapatos” dos decisores da Federação Portuguesa de Automobilismo e Karting (FPAK), o calendário do Campeonato de Portugal de Ralis tem muito que se lhe diga!

Mantendo o equilíbrio entre as provas em asfalto e terra, a FPAK quis reduzir o calendário indo ao encontro de uma vontade há muito anunciada pelo seu presidente, pressionada por alguns pilotos.

Concedendo o direito de organizar o edifício das competições, aceitando que esse poder está nas mãos da entidade federativa e abrindo a porta às opiniões dos principais interpretes da competição, há situações que não se compreendem.

Teremos oito provas entre abril e outubro, quatro de asfalto e quatro de terra. Até aqui, tudo mais ou menos certo. Depois, olhando para as provas escolhidas para este calendário, descobrimos que abaixo do Mondego não há uma prova, tendo o Rali do Algarve sido apagado deste calendário.

Mas há mais: o Rali dos Açores foi igualmente apagado deste calendário, mantendo-se o Rali de Portugal e o Rali da Madeira. Razões para duas provas internacionais focarem de fora?

Razões puramente economicistas levaram a esta decisão. Não há outra razão e com esta decisão, o Campeonato de Portugal de Ralis para a ser um Campeonato Regional de Ralis (CRR).

E para que não existam dúvidas que a escolha foi deliberada, a primeira prova do CRR será o Rali Terras d’Aboboreira. E o que a prova do Clube Automóvel de Amarante tem a ver com isto? É que a competição está marcada para os dias 30 de abril a 2 de maio, enquanto o Rali dos Açores será disputado entre os dias 6 a 8 de maio.

Não custa muito perceber que a data não foi escolhida por acaso… foi pensada para esvaziar a prova açoreana de concorrentes nacionais que disputem o CRR. Não fica bem. E pode Ni Amorim dizer que “é a prova mais cara de todo o campeonato”, mas que me lembre são raros os pilotos que não querem lá ir!

E não quero acreditar, nem sequer aceitar, que tudo isto esteja ligado às dívidas que, nas palavras de Ni Amorim à RTP Açores, o Grupo Desportivo e Comercial tenha com a FPAK há 15 anos.

O presidente da FPAK, em declarações ao Açoriano Oriental, justificou que “para 2021, após reunião com as associações de pilotos, entendemos que tínhamos de reduzir os custos, entre os quais os números de provas, de quilómetros por rali, de pneus por prova, para fazer um campeonato com dignidade, mas mais barato.”

Disse ainda o ex-piloto que “havendo um rali com a visibilidade do Rali de Portugal, pelo mesmo preço dos Açores, mas com visibilidade maior, decidiu-se que os Açores não pontuariam para o Nacional.” 

Sobre a saída do Algarve, foi um critério técnico “devido à necessidade de haver equilíbrio entre o número de provas de asfalto e de terra.”

Sinceramente? Honestamente? Nada disto faz sentido e voltamos à velha história da poupança que todos clamam, mas que ninguém pratica.

Uma vez mais tudo é feito ao contrário e com reatividade e não proatividade. Depois de um ano difícil, sabendo-se que os anos seguintes seriam duros, não teria sido avisado, ainda em 2020, preparar tudo para que se fizesse um “downgrade” dos carros admitidos no Campeonato de Portugal de Ralis, primeiro proibindo as evoluções dos R5 e, depois, baixando para uma categoria inferior?

O argumento dos investimentos não colhe, pois posso trazer aqui as solicitações e as compras de evoluções para os vários Skoda, Hyundai e outros carros portugueses que os departamentos de competição cliente receberam.

Além disso, existe um enorme mercado para os R5 na Europa e nunca foi problema vender carros de competição.

Mas não, a opção foi cortar nas provas e as equipas e pilotos vão usar esse dinheiro para comprar mais umas peças, mais umas evoluções e fazer mais uns testes ou passagens pelas classificativas até as decorarem.

Quem viver abaixo do Mondego terá de fazer oito deslocações a Norte e o campeão nacional de ralis de 2019, Ricardo Teodósio, fica sem a prova da sua terra, perde os patrocinadores que o ajudam por esse motivo e vai ter de encontrar forma de gastar o dinheiro de um rali para pagar as deslocações, estadias e outras despesas ao longo de 2021. E este é apenas um exemplo, haverá mais certamente.

Não faz sentido, não ajuda a competição e teremos em 2021 um calendário regional, assim como acontece com os Campeonatos do Mundo norte americanos que só se realizam nos EUA.

Claro que muitos vão dizer que “não se pode fazer campeonatos á medida de ninguém” e têm toda a razão. Mas se é um CAMPEONATO DE PORTUGAL DE RALIS, não pode ser só disputado a Norte, tornando os restantes pilotos filhos de um deus menor. Nem sequer esvaziar uma prova com estatuto internacional com a plantação de uma prova do CPR em cima da data do Rali dos Açores. Porque a FPAK não manda no dinheiro de cada um e há pilotos que gostam da prova açoreana e que lá estariam à partida mesmo não contando para o Nacional.

Imaginem que há um piloto que está interessado em participar no Campeonato de Portugal de Ralis e Campeonato Europeu de Ralis – não é uma situação virgem e poderia ter acontecido em 2020 não fosse a pandemia – é justo cortar-lhe uma das duas provas que se realizam “em casa”? Ou ir até á Hungria, Letónia ou Canárias é mais barato que os Açores? 

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