Clássicos

Vauxhall “Baby Bertha”: não lhe chamem “baby”!

Lembra-se de Gerry Marshall? E do Vauxhall “Baby Bertha”? Recordamos um dos carros mais impressionantes nascidos dos loucos anos 70 no Reino Unido.

A revista britânica Retro, contou uma história muito interessante de um casal australiano que viajou através de meio mundo para ver um… Vauxhall. Neste caso, para ver o “Baby Bertha” um dos carros mais espetaculares da competição automóvel.

O AUTOBLOGUE pegou nessa história assinada pelo jornalista Piers Ward e pelo fotografo Jonny Fleetwood, e decidiu prestar homenagem ao “Baby Bertha” com a devida vénia à revista e aos autores da história.

Época de loucura!

Houve uma época nos anos 70 do século passado onde a competição automóvel era feita com pilotos carismáticos. Porém, os carros ultrapassaram esse carisma dos pilotos, pois eles usavam carros verdadeiramente impressionantes, com regras liberais, proporções bíblicas e estilos saídos dos livros de banda desenhada.

Era uma época onde a televisão era um luxo, não havia redes sociais nem vaidades e os pilotos andavam de fato e gravata, os fatos eram feitos de pano cru e os sapatos eram semelhantes aos da ida á missa.

Foi o tempo em que a famosa frase “win in Sunday, sell on Monday” (ganhar ao domingo, vender à segunda) era uma realidade e o investimento na competição era “obrigatório” face aos magotes de gente que se aglomerava nas bancadas dos circuitos, muitos ainda imberbes por terem sido criados a partir dos aeródromos deixados pela guerra.

Os Super Saloon onde a regra… não tinha regra!

Foi, também, o tempo do campeonato “Super Saloon” criado por Peter Browning do BRSCC (British Racing and Sports Car Club) desapontado com o facto do Campeonato Britânico de Turismos ter passado dos Grupo 2 para uma espécie de Grupo 1 melhorado.

Prémios chorudos (para a época oferecer 200 libras ao vencedor de uma corrida e ter prémios monetários até ao 10º classificado era ótimo) e uma liberdade de regulamento (quase) sem restrições, tornou-o uma competição sedutora para pilotos e espetadores.

Foi um período, curto é verdade, que deu origem a carros como o VW Carocha V8 (motor “small block” V8 Chevy com 520 CV) e o Ford Escort RS MK2 (motor Ford V6 com 450 CV), o Jaguar XJ8 (motor V8 Chevy clm 620 CV) e o Ford Capri V8 (Ford V8 [Boss com 430 CV ou Westlake com 410 CV e ainda um Chevy V8 com 550 CV]). 

Ou ainda o DAF V8 (motor Oldsmobile V8 5.0 com 450 CV), o Skoda 130R (Chevy V8 com 470 CV), o Chevrolet Corvair (V8 com 600 CV) e o Vauxhall Magnum (com um V8 Aston Martin).

O “Baby Bertha”

A Vauxhall quis entrar na dança e Bill Blydenstein encarregou-se de criar o Baby Bertha. Não eram, propriamente, neófitos nestas coisas pois o “The Old Nail”, um Firenza Coupé e o “Big Bertha”, feito com base no Ventora, já tinham sido levados para a pista. Mas o “Baby Bertha” era um “animal” muito diferente.

Mantendo a base do Firenza Coupé – no caso o “Droopsnoot” devido a ser mais aerodinâmico – as alterações eram absurdamente amplas. O chassi e parte da carroçaria eram feitas em aço, o resto da carroçaria era em fibra de vidro.

O carro de série tinha motores de 4 cilindros cuja cilindrada máxima era 2.2 litros. Mas no caso do “Baby Bertha”, debaixo do capô estava um V8 Repco-Holden com 5.0 litros de cilindrada. Com duas válvulas por cilindro e árvore de cames à cabeça, tinha injeção mecânica e debitava 480 CV e 515 Nm de binário.

A potência surgia às 7400 rpm e o binário a elevadas 5.500 rotações, fazendo deste um bloco pontudo e nada fácil de explorar. Mas um belíssimo motor com uma potência especifica de 96 CV/litro. Como pesava leves 1018 quilogramas, a relação peso/potência era de 0,5 CV/kg.

Nas suspensões, a traseira exibia um eixo De DIon com três ligações, molas helicoidais, amortecedores e barra estabilizadora. Já à frente exibia uma arquitetura de duplo triângulo com “coilovers” e barra estabilizadora, sendo que em ambos os eixos existiam sub-chassis em aço.

A tração era feita às rodas traseiras através de uma caixa manual Borg Warner T102S de 4 velocidades e diferencial autoblocante mecânico.

Contas feitas, chegava dos 0-160 km/h em 7,8 segundos, um valor espetacular para a época e que o tornava 6,2 segundos mais veloz nesse exercício que um… Lamborghini Countach. 

O Vauxhall Firenza “Baby Bertha” foi desenhado para ganhar o fantástico campeonato “Super Saloon”!

E se a Vauxhall juntamente com Bill Blydenstein criou um verdadeiro monstro, que dominou a competição em 1975 e 1976!

No primeiro ano, ganhou 20 das 24 corridas disputadas, em 1976 venceu 10 das 13 provas agendadas, tendo registado dois abandonos e um segundo lugar! E nesse ano, o Vauxhall “Baby Bertha” registou seis voltas mais rápidas todas com médias acima dos 160 km/h! E sempre com um piloto como denominador comum: Gerry Marshall.

O fim!

O domínio do “Baby Bertha” foi de tal forma intenso que a imprensa começou a destacar o aborrecimento das corridas, pois os vencedores eram sempre os mesmos.

Depois, na tentativa de apanhar o Vauxhall, a corrida ao armamento atirou os orçamentos para a estratosfera, sendo insuportáveis para a maioria das equipas que enchiam as grelhas.

Nesta ambiente e com o “Baby Bertha” a ganhar tudo, os responsáveis pelo campeonato viraram-se para outros regulamentos e a Vauxhall retirou da competição o “Baby Bertha” após três anos de competição. Apareceu pela última vez no circuito de Thruxton onde registou a sua última vitória.

Um carro que ficou na história da competição automóvel, mostrando como os ingleses sempre tiveram uma forma muito própria de estar na competição. Chama-se “Baby Bertha”, mas deveria ter herdado a alcunha de “Big Bertha”…