Desporto

Campeonato de Portugal de Ralis: uma opinião sobre um calendário ditado pela redução de custos

A Federação Portuguesa de Automobilismo e Karting (FPAK), liderada por Ni Amorim, desenhou o calendário do Campeonato de Portugal de Ralis depois de escutar os pilotos e as equipas. As decisões merecem alguma reflexão.

Reconhecidamente, o Campeonato de Portugal de Ralis é a competição mais “saudável” do desporto automóvel luso. Provas de qualidade, equipas oficiais e R5 aos molhos e com todos os estados de evolução possíveis. Além de pilotos que já deram provas em competições internacionais.

Ser cónego numa paróquia como a FPAK não é fácil e com a pandemia de Covid-19 a instalar-se confortavelmente nas nossas vidas, tudo mudou de feição. Os adeptos não podem ir para a beira da estrada, não podem ir ter com os pilotos aos parques de assistência, enfim, o sucesso dos ralis… esfumou-se com o vírus!

Perante as indecisões e o truncado campeonato de 2020, imediatamente o papão dos custos se agigantou e passou a viver na boca de todos. E de uma forma educada e consciente, pelo que sei, a FPAK decidiu ouvir os pilotos. Não foram todos, mas foram ouvidos protagonistas.

Portanto, tudo estava alinhavado para termos um campeonato com menos provas e com preocupação de corte nos custos.

Pensei, claramente, que a prova maior dos ralis nacionais tivesse apenas seis provas disputadas no território nacional. 

Pois o que decidiu a FPAK? Em primeiro lugar, retirar duas provas, uma de asfalto e outra de terra, ficando oito ralis. Depois, perante o sucesso organizativo dos ralis nacionais, houve uma promoção ao Europeu de Ralis e acabamos nos braços com o Rali de Portugal no WRC e Açores e Fafe no Europeu de Ralis.

E para que fique claro, embora não seja a minha opinião que faça qualquer diferença, concordo absolutamente com a redução de provas, com a busca da maior redução de custos e com poupanças que se façam para aumentar os inscritos na competição.

E desde já rejeito as acusações de regionalismo nos ralis, pois Portugal é uma nação única e indivisa, do Minho ao Algarve, dos Açores à Madeira. Dizer o contrário é absoluta idiotice.

Dito isto, vamos lá olhar para o calendário como deve ser. 

Em primeiro lugar, é perfeito o equilíbrio entre provas de asfalto e terra, quatro para cada tipo de piso. Desequilíbrio existe no facto de todas as provas serem a Norte do Mondego. E não, não me venham com a conversa que não se pode fazer um calendário á medida de todos, porque foi exatamente isso que acabou por ser feito, mas há medida só de alguns. 

Claro que há pilotos que não se incomodam com a situação. Percebe-se, as suas equipas estão sediadas a Norte e ir do Sul ao Norte com mala e cuia é mais simples que andar com a estrutura às costas. 

E sim, alguns têm toda a razão, quando dizem que deveria haver uma prova perto de Lisboa. Não, como dizem alguns idiotas, porque é a capital do Império, mas sim porque deveríamos todos pugnar por um campeonato mais plural e capaz de chamar mais pessoas para a berma da estrada e encontrar adeptos entre os mais jovens. 

E já que muitos se queixam da falta de promoção e visibilidade dos patrocinadores, não é muito mais interessante promover as empresas e os serviços em TODO o país, incluindo as ilhas?

Porém, ninguém disse – eu pelo menos nunca o disse – que as provas maiores como o Rali de Portugal, Rali dos Açores, Rali da Madeira, tivessem de ser provas a contar para o campeonato nacional. Não vale a pena abrir a boca de espanto… há muitos países com campeonatos nacionais onde as provas maiores não pontuam e não é por isso que deixam de ter pilotos inscritos.

Quem paga do seu bolso uma temporada do Campeonato de Portugal de Ralis, fá-lo porque adora a competição e tem os recursos para isso. Promove o seu negócio – leia-se, mostra a sua empresa e pode ter conta de exploração com custos de marketing e publicidade justificados – e diverte-se. 

Já quem tem patrocinadores que os ajudam a pagar a conta no final do ano, querem oferecer o maior retorno. E onde está o maior retorno? Claro, no Rali de Portugal e no Rali dos Açores. 

Porque no primeiro caso todos falam do assunto e até se lembram que há pilotos nacionais nos ralis. 

No segundo caso porque a RTP Açores faz aquilo que deveria a RTP fazer a nível nacional como serviço público, oferecendo uma cobertura impressionante.

Como disse num artigo publicado há uns dias, a FPAK diz que o Rali dos Açores é o mais caro, mas raro é o piloto que não quer lá ir. Pergunto-me… porquê?

Uns alvitram que as condições do Grupo Desportivo e Comercial (GDC) são excelentes, que até dá para fazer umas férias. Outros esgrimem como razão a excelência dos troços e mais alguns adoram a paisagem e o acolhimento dos açoreanos. Não me lembro de alguém falar com tanto carinho do Rali de Portugal como o fazem com o Rali dos Açores.

E entende-se de forma pouco clara que aceitem ficar sem os Açores, mas que se retanha o Rali de Portugal, mas apenas fazendo uma etapa. E logo a inicial onde a visibilidade será igual a quase nada. 

Mas o mais preocupante é saber, pela boca do presidente da FPAK, que o GDC tem dívidas de 15 anos por saldar com a FPAK. Essa menção levanta uma lebre que, involuntariamente, corre velozmente a pista da suspeição.

Sigam o raciocínio: o Rali dos Açores sai do calendário. Podemos concordar ou não, mas é o que é. Mas, supostamente, há contas a acertar com mais de 15 anos e olhamos para o calendário. E surge colada a data do Rali dos Açores a data de realização do primeiro rali do Campeonato de Portugal de Ralis. Ou seja, impedindo aqueles que tenham orçamento ou desejo de ir à prova cumprir a deslocação e esvaziando a prova insular que ficará com apenas com os concorrentes locais e os do europeu!

Pode ter sido inadvertidamente, mas é algo que não se faz! Porque há equipas, patrocinadores e pilotos que estão se marimbando para a questão do custo do Rali dos Açores e querem disputá-lo, querem ser vistos nas ilhas e naquele mercado. 

É um erro imperdoável, na minha opinião!

Mas falemos agora do Rali do Algarve. Recebi algumas mensagens a condenar a minha defesa do Rali do Algarve, apontando a minha amizade com o Ricardo Teodósio. Não vale a pena ir por esse caminho. Porém, não vou deixar de olhar para o Campeão Nacional de Ralis em 2019, numa edição completa e não truncada, e não perceber o seu desespero.

O piloto algarvio (e mais alguns pilotos que poderiam sair dos regionais) está no polo oposto onde se realizam os outros ralis do Nacional. A maioria dos seus patrocinadores estão sediados no Algarve e contam com a presença na prova algarvia para manterem o apoio. Porque será que foi o Algarve a saltar do Campeonato Nacional?

É verdade que não podemos ter um campeonato à medida de cada um, mas como disse acima, continuamos a laborar no erro de concentrar tudo numa só região e à medida de alguns. Por isso a pergunta é premente: por que razão saltou o Rali do Algarve?!

E deixo aqui mais algumas questões que acho pertinentes.

Porque não instaurar um processo de rotatividade e desenhar um campeonato, verdadeiramente, de Portugal? 

Porque não encontrar forma de tornar o Rali dos Açores mais acessível (mesmo que, na minha opinião, esse não seja o problema)?

Porque não é aberto o diálogo para que os ralis nacionais deixem os Rallye2 e adotem os Rally3 num prazo razoável que permita amortizar os carros?

Porque não há intervenção nos custos das organizações para que as inscrições sejam mais acessíveis?

Porque não ter um calendário nacional sem o Rali de Portugal? Quem quiser disputá-lo, inscreve-se e aproveita o mediatismo.

Enfim, claro que cada cabeça, sua sentença, mas a verdade é que os cortes de custos não se fazem desta forma. 

Não vai oferecer nenhum ganho competitivo nem ganhos significativos nos orçamentos. Sabem porquê? Querem apostar dobrado que o que se poupa de um lado, vai direitinho para evoluções que possam dar mais uns milésimos de segundo por quilómetro?