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Opel Kadett D 400: uma ideia ousada que estava destinada a não resultar

A regulamentação do Grupo B teve o mesmo efeito das luzes nos mosquitos: chamou muitos interessados, mas a maioria queimou as asas e… desapareceu. O Opel Kadett D400 é um desses exemplos.

Tony Fall era o patrão da Opel Motorsport e enquanto os seus engenheiros finalizavam o Manta 400 para ocupar o lugar do Ascona 400, o britânico tinha em mente outra coisa como alternativa para o futuro.

E qual era a ideia do antigo piloto britânico que, depois de ter pendurado o capacete, formou o BDOT (British Dealer Opel Team) cujos bons resultados o levaram para a direção da Opel Motorsport?

Depois de ter conseguido com Walter Rohrl ganhar o Mundial de Ralis com o Opel Ascona 400 e de ter lançado o desenvolvimento do Manta 400, pensou pegar na mecânica do Manta e colocá-la numa carroçaria mais compacta e num chassis mais ligeiro. E qual foi o carro escolhido? O Opel Kadett D.

A Opel, na época, vendia o Kadett D com mecânicas fraquinhas, mas tinha uma versão que recordava um nome grado dos ralis, o Kadett GTE. E foi a partir do GTE que os técnicos da Opel Motorsport trabalharam para encaixar o Rossio na Rua da Betesga e transformar o pacato tração dianteira num monstro de tração… traseira!

Como o regulamento do Grupo B permitia quase tudo, o Kadett ficou totalmente diferente.

Para começar, os técnicos da Opel conseguiram posicionar o motor do Ascona 400 cerca de 5 cm atrás do eixo dianteiro face ao Ascona, o que ajudava na distribuição de pesos.

Depois, criaram um túnel para colocar o veio de transmissão para levar a potência até
às rodas traseiras. Finalmente, o bloco de 2.4 litros preparado pela Cosworth entrou na “phase 2” e debitava 220 CV.

Quanto à carroçaria, foram aplicados generosos alargamentos á frente e atrás, feitos em fibra de vidro e colocados vidros de policarbonato. Apesar disso e mesmo com poucas informações sobre o projeto, sabe-se que o carro pesava uma tonelada. Foi por isso que surgiram mais peças em alumínio para tentar acompanhar o peso mínimo regulamentar.

Sabe-se que transformar o Kadett GTE no Kadett 400 foi trabalhoso e moroso e quando a ampulheta do prazo dado por Tony Fall se esgotou, tinham sido feitos dois carros completos e uma carroçaria. Feitos à mão, eram todos diferentes e tinham especificações diversas.

Como não havia provas na Europa que aceitassem protótipos, a Opel Motorsport mandou os carros para a África do Sul. Por coincidência, ou talvez não, o Kadett D era um dos carros mais vendidos “down under”. Por isso foi fácil encontrar uma forma de testar o carro.

Infelizmente, tudo correu mal para os alemães: um dos dois carros completos conheceu um princípio de incêndio e acabou consumido pelas chamas. O outro carro foi pilotado por Tony Pond no Nissan International Rally de 1984.

O Kadett D 400 fez um bom rali, Pond ganhou três troços, rodou no segundo lugar, mas acabou por abandonar devido a uma bomba de óleo partida.

Porém, tudo isto se estava a passar nos bastidores de um Mundial de Ralis que estava a crescer a olhos vistos e sublinhava a superioridade das quatro rodas motrizes introduzidas pela Audi.

O Manta 400 rapidamente ficou obsoleto e sendo menos competitivo que o Ascona 400, a Opel retirou-o da competição internacional. Mas a casa alemã não deixou de insistir no Manta e fizeram-se alguns protótipos de um Manta 400 4×4.

Mas o carro não mostrava competitividade e sem um motor turbo, não iria a lado nenhum.

Tony Fall sabia que a Opel estava numa posição delicada para se manter no Mundial e que a sua ideia de colocar a mecânica do Manta 400 no Kadett D não iria a lado nenhum. Olhando para os rivais, Fall percebeu, rapidamente, que teria de construir algo muito mais radical que o Kadett.

Para piorar as coisas, a Opel estava prestes a substituir o Kadett por uma nova geração, o Kadett E. Ainda assim, Tony Fall não quis dar o braço a torcer e colocando de lado o Kadett D400, lançou a ideia do Kadett E4S. Que, claro, correu igualmente mal.

Em 1986, já o projeto estava morto, Malcolm Wilson comprou os dois carros que sobravam para participar no Campeonato Britânico de Ralis. O que foi um erro, pois o carro tinha um “rol bar” em… alumínio e os regulamentos internacionais já não autorizavam este tipo de proteção. Malcolm Wilson trocou os “rol bar”, mas não competiu com o Kadett D 400 e acabou por vender os dois carros.

Um dos compradores que gastaram bom dinheiro a comprar o Kadett D400 foi Murray Grierson, piloto que o usou de 1986 a 1989 nos campeonatos de ralis do Reino Unido e na Escócia, sendo um piloto regular nos pódios.

Tendo a seu lado Roger Anderson, venceu o campeonato escocês de ralis em 1987 e foi segundo no campeonato britânico de ralis em 1988. No ano seguinte foi apenas terceiro e foi a gota de água, trocando o Kadett por um MG Metro 6R4 “Clubman 300”. 

O segundo carro acabou a fazer provas de circuito, trocando de mãos muitas vezes e rodando por vários países. Regressou à Irlanda e voltou a ser carro de ralis com Roy Haslett. Recebeu um motor Ford Pinto (!) de 2 litros e competiu em 2005 numa prova de asfalto e terminou em 18º.

O carro acabou nas mãos de Davy McLaughlin que o restaurou, preparou e desde há vários anos que repousa na sua garagem, saindo ocasionalmente para eventos de clubes de clássicos na Irlanda.