Clássicos

BMW 320iS muito especial regressou às pistas em Braga

O ANPAC Racing Weekend deu o pontapé de saída da temporada 2021 da velocidade nacional. E entre cerca de uma centena de automóveis estava um muito especial que ganhou um troféu monomarca no já distante ano de 1992.

O Autódromo do Estoril ainda tinha a curva 1 e a variante era coisa desconhecida… o Circuito de Braga não existia e Vila Real e Vila do Conde, circuitos citadinos, destacavam a descida de Mateus e a Curva da Seca. Enfim, eram alternativas ao moderno traçado erigido pela Grão-Pará ali entre o Estoril e Cascais ou mesmo dentro de Cascais como alguns defendem.

Eram os tempos de grandes carros, grandes pilotos e iniciativas que iam enchendo as grelhas de partida, seduziam os amantes do desporto automóvel. Era o tempo em que a televisão pública, vivendo sem concorrência, dedicava atenção às corridas de automóveis. Até tinham programas dedicados! Enfim, eram outros tempos!

Os anos 90 foram exuberantes – talvez o medo do “bug” do milénio que estava ali ao virar da esquina empurrava para diante todo o tipo de projeto – e a Baviera, parte do Grupo Salvador Caetano e importador da marca de Munique em Portugal, decidiu colocar em pista uma competição diferente.

Troféu BMW – Mobil 1 com os 320iS

A ideia foi colocar em pista os BMW Série 3 E30, mas sem recorrer aos dispendiosos M3, reservados para os campeonatos de Turismos. Reunindo o apoio oficial da BMW – que considerou a competição nacional como um dos mais bem sucedidos troféus feitos com carros da marca – a Baviera rodeou-se dos melhores fornecedores: AC Schnitzer que fornecia as suspensões “coilover” com amortecedores Bilstein e molas Eibach, a centralina especifica para o troféu que lhe conferia cerca de 200 CV de potência, as jantes de 15 polegadas (‘gandas’ malucos!), as linhas de escape e a barra anti-aproximação das suspensões; a Matter fez o “roll bar” e a Yokohama fornecia os pneus. A Mobil era parceria da Bavieira e patrocinava a competição.

Para promover a igualdade e reduzir o “faralhanço”, a organização da competição retinha na sua posse as centralinas que viajavam de prova para prova com a organização e eram sorteadas aleatoriamente antes de cada prova. Assim, ninguém tinha a tentação de mexer no controlo do motor.

BMW 320iS: o BMW M3 dos pobres

E qual foi o carro escolhido? O M3 dos pobres, como alguns o chamavam… o 320iS. A Baviera encomendou 26 carros à casa mãe, todos brancos, todos sem teto de abrir e com um nível de equipamento reduzido ao mínimo. Só 23 competiram e três ficaram para “Safety Car”.

O 320iS era um carro sui-generis e para falar dele temos de recuar até 1987. A BMW tinha lançado o M3 há um par de anos, um carro que tinha como base o Serie 3 E30 utilizando um motor de quatro cilindros com 2.3 litros com cerca de 200 CV. Hoje o M3 é um carro disputado pelos amantes dos carros clássicos exibindo valores elevadíssimos.

Mas há um carro que é ainda mais raro e que é dificílimo de encontrar um carro de estrada. Falamos do irmão do M3, o 320iS. Enquadremos o 320 iS.

Na época, a fiscalidade em Portugal e Itália penalizava de forma absurda os carros de cilindrada superior a dois litros. Entre nós… porque sim, em Itália para defender as marcas italianas.

O BMW M3 com o seu motor 2.3 litros levava uma “martelada” absurda e ficava com um preço estratosférico. Claro que os M3 E30 se vendiam nos dois países, mas a BMW entendeu – tal como tinha acontecido com a Mercedes e seu 190 1.7 litros que ainda hoje não se percebe como é que a casa de Estugarda gastou dinheiro com Portugal… – oferecer a portugueses e italianos um “amigo dos impostos”, espécie de M3 descafeinado.

Por fora não tinha os alargamentos, os para choques ou a tampa da mala do M3. O interior estava despido de equipamento, mas o volante M do M3 lá estava, o painel de instrumentos do M3 também e a alavanca da caixa também, embora as agulhas dos instrumentos fossem brancas e não se visse o logótipo M. 

Por baixo do capô estava o motor BMW M Power, mas aqui com 1990 c.c. com 192 CV às 6000 rpm e 210 Nm às 4900 rpm. Porque tinha menos cilindrada, mas era muito rotativo na mesma, a BMW dizia que o motor do 320iS era mais bicudo que o do M3.  Curiosamente lembro de ter andado com um destes 320iS e com o M3 da época e penso exatamente o contrário. 

A caixa de velocidades era uma Getrag 265 com o famoso “Dog Leg”, ou seja, tinha a primeira invertida e as outras quatro mudanças agrupadas num H com a marcha atrás por cima da primeira velocidade. A relação final era de 3,46:1, mas como a caixa era mais curta que a do M3, as acelerações e a retoma de aceleração era mais rápida que no M3…

No eixo traseiro estava um autoblocante mecânico e, colocado na báscula, o BMW 320iS pesava ligeiros 1218 quilogramas, menos 88 quilogramas que o M3! Por isso não estranha que o 320iS tivesse melhores prestações que o BMW M3. A aceleração 0-100 km/h homologada era de 7,5 segundos (o M3 fazia em 6,7), mas as recuperações de aceleração eram melhores.

O 320iS tinha os travões usados nos BMW de seis cilindros (discos dianteiros de 260 mm de tamanho). A casa de Munique oferecia o carro nas versões de duas e quatro portas, com esta última a ser, virtualmente, impossível de distinguir de um plebeu 316i! As variantes de 4 portas tinham jantes de 14 polegadas e não tinham o “kit” de carroçaria específico da M-Technik exclusivo do 320iS de duas portas.

Este era composto por para choques redesenhados, asa traseira e jantes semelhantes às do M3 com 14 polegadas e um simples logótipo “320iS”.

Os ensaios da época e a minha lembrança diz-me que o 320iS era mais ágil e fácil de conduzir que um M3, não o deixando fugir numa estrada sinuosa.

O 320 iS é um verdadeiro unicórnio da BMW. É um carro mais raro que o BMW M3 E30 pois entre 1987 e 1990 foram produzidas 2.540 unidades de duas portas e 1205 de quatro portas! Os carros de duas portas têm, todos, o “kit” M-Technik enquanto só 3% dos carros com quatro portas (24 carros!) têm esse “kit” de carroçaria. Do M3 E30, a BMW vendeu 18 mil carros!

Há unidades há venda, poucas, mas com preços que andam acima dos 30 mil euros (o M3 pode chegar aos 50 mil euros). E se conseguir um 320iS de quatro portas com “kit” M-Technik por um bom preço, compre! Porque o 320iS é um carro que é ainda mais divertido que o M3 e com 4 portas é raríssimo.

UM REGRESSO AO PASSADO

Regressamos a 1990, estreia do Troféu BMW Mobil 1. Entre eles estava um piloto do Norte que tinha um irmão a competir na velocidade nacional… Falamos de Alcides Petiz, irmão de Jorge Petiz, que usou um 320iS pintado de vermelho com as cores da S.Conrado, concessionário BMW. Participou nas três edições: ficou em 3º no ano de estreia… ficou em 2º em 1991 e foi o grande vencedor da competição em 1992. E porque é que fui buscar este piloto e este carro? Porque o 320iS campeão… está de regresso à competição!

LUÍS IMPÉRIO RECUPEROU 320iS CAMPEÃO

Alimentada pelo pai, a paixão pelo desporto automóvel foi crescendo ao ritmo das idas a Vila do Conde, ali “ao lado” do seu Porto natal, com tenros cinco anos. A “doença” foi minando a sua vontade e tendo como favoritos os carros de Turismo e o BMW M3 E30 como “Santo Graal”, acabou a cumprir o seu sonho de ser piloto em 2008 ao volante de um… Fiat Punto do troféu FEUP.

As “piastras” não eram muitas, mas lá desencantou com um colega de trabalho o vil metal que lhe permitiu erigir o projeto de piloto. Conta com uma medalha: estreou o Autódromo Internacional do Algarve. Era, então, um jovem com 44 anos…

O Punto serviu a estreia, serviu a aprendizagem, serviu tudo e mais alguma coisa…. mas era curto. A Taça Nacional de Clássicos Pós Históricos que deu origem aos Legends, espoletou a adormecida “doença” das corridas. A Taça 1300 servia-lhe que nem uma luva e imediatamente foi às lembranças de miúdo e a imagem do Citroen AX Sport saltou-lhe para os olhos

Preparou um carro destes e porque, uma vez mais, o vil metal não abundava, fazia corridas ao mesmo ritmo que demorava partir o mealheiro, colar as peças do porquinho e voltar a enchê-lo! Mas, qual relógio suíço, participou todos os anos com o irrequieto e por vezes caprichoso e teimoso Citroen AX Sport.

Provando que os amigos são a melhor coisa que se pode ter, foi desafiado por um desses “bandidos” a comprar o que mais perto de um M3 E30 existe. Viu um BMW 320iS ex-troféu BMW à venda e acordou a paixão que estava meio adormecida pelo BMW M3.

Claro que não estava nos seus planos comprar o carro que ganhou o Troféu BMW em 1992 pelas mãos de Alcides Petiz. Claro que queria era pilotar um BMW M3 E30. E claro que a pancada da cabeça na mesinha de cabeceira o fez despertar e perceber que este 320iS tinha de ser seu.

Embalado pelas memórias dos duelos na Seca entre António Barros, António Rodrigues, Manuel Fernandes e os irmãos Jorge e Alcides Petiz, Luís Império não perdeu tempo e comprou o belíssimo BMW 320 iS ex-Alcides Petiz e um dos carros do trofeu com melhor palmares: 3º classificado em 1990, 2º classificado em 1991 e Campeão em 1992! 

Não era um BMW M3 E30, mas caramba, era um carro com “pedigree” e com o motor S14 com 2.0 litros. O carro que foi feito de propósito para vender em Portugal e Itália devido à fiscalidade. Enfim, o carro que mais perto ficava do seu sonho.

Devolveu o carro à sua cor original, colocou-lhe todos os patrocinadores da época – e surgiram críticas absolutamente idiotas, pois o carro de Alcides Petiz era vermelho, mas começou, como todos os outros, branco e cinzento – deu-lhe alguns mimos e foi forçado a substituir o “rol bar” original da Matter porque as gaiolas de segurança em alumínio não são autorizadas. “Mas tenho o original guardado com todos os autocolantes das verificações!” disse-me orgulhoso o Luís. 

Enfim, no fim de semana do 25 de abril, Luís Império estreou o carro no ANPAC Racing Weekend disputado no Circuito de Braga. Estreia abençoada pela chuva que teve de tudo: um toque perfeitamente ocasional que amarrotou um bocadinho o 320 iS e uma vitória na categoria Trophy. Para que todos tenhamos aquele momento de nostalgia, fica o vídeo de algumas provas do Troféu BMW e os “onboards” das corridas do Luís Império no Circuito de Braga.