Elétricos

Ensaio Mazda MX30: muito mais que apenas um carro elétrico

Este é o primeiro Mazda de produção e série 100% elétrico e para lá do estilo sedutor há muito mais que uma autonomia curta justificada por razões absolutamente lógicas. 

Rating: 4 out of 5.
  • A Favor – Estilo, interior, conforto, sofisticação
  • Contra – Autonomia, peso, prestações

A Mazda sempre esteve do lado dos maiores críticos sobre a transição para a mobilidade 100% elétrica, criou tecnologias que limpam os motores de combustão interna, faz parte de um alargado grupo de construtores que estuda os combustíveis sintéticos e vai lançar motores a gasolina e a gasóleo.

A Mazda sabe, como todos nós sabemos, que os veículos 100% elétricos não são isentos de emissões, a montante e na utilização, não sendo tão sustentáveis e ambientalmente responsáveis como nos querem fazer crer. Porém, não sendo o mercado europeu a sua maior preocupação, a Mazda não podia correr o risco de morrer com a sua ideia e ser apanhada sem um carro elétrico quando a União Europeia endurecer as regras de emissões.

É por isto que nasce o Mazda MX-30 que é o primeiro Mazda 100% elétrico de produção em série. E inevitavelmente, teria de ser um SUV, melhor, um crossover.

Mas o MX-30 não é apenas mais um automóvel 100% elétrico. Quando assisti ao lançamento do Mazda MX-30 no Salão de Tóquio em 2019, ficou claro que este não é um modelo apenas para satisfazer os europeus, mas um carro pensado “fora da caixa”.

Percebi na altura que a casa de Hiroshima mantém firma a ideia de manter os motores de combustão interna, mas a via elétrica será acarinhada e por isso o MX-30 foi feito de uma maneira diferente.

A Mazda não se limitou a arrumar os componentes elétricos debaixo do capô e a colocar as baterias onde haja espaço num modelo existente como o CX-5 ou o CX-30. Os responsáveis da Mazda deram carta branca aos engenheiros e aos designers para criar um carro que seduzisse pelo estilo e não tanto pelas performances.

O ESTILO DO MX-30 É DIFERENTE DOS OUTROS MAZDA

É verdade! Confesso que quando vi o MX-30 pela primeira vez… torci o nariz! Vá lá, o carro tinha pouco a ver com o resto da gama, mas hoje as palavras de Youchi Matsuda, o responsável pelo estilo do MX-30 soam na minha cabeça como Martelinhos de São João! “Vai ver que daqui a dois anos vai achar o carro giro!” E não é que ele tinha razão!

O estilo é realmente diferente, mas sedutor e misturando conceitos. Um crossover que utiliza referências do passado da Mazda. Lembra carros como o MX-5 ou o coupé MX-3 e, sobretudo, o Mazda RX8 exibido nas portas suicidas que dão um aspeto sofisticado e diferenciado. E acredite que será, sempre, um motivo de conversa quando chegar a algum lado com o seu MX-30. A mim aconteceu!

Enfim, gosto muito do estilo do MX-30 e pela primeira vez em mais de 30 anos de profissão tive de dar o braço a torcer: enganei-me no primeiro olhar!

INTERIOR IGUALMENTE DIFERENCIADO

O habitáculo do MX-30 é mais um exemplo da inteligência do projeto do seu primeiro carro 100% elétrico. Porque é um carro ecológico, o interior tem materiais vegan e… cortiça! Portuguesa, pois claro! Fiquei orgulhoso quando na apresentação do carro em Tóquio, falassem da cortiça portuguesa usada no MX-30 e olhassem para a comitiva portuguesa que estava presente.

Para os menos conhecedores, a Mazda celebrou 100 anos em 2020 e começou como… corticeira! Portanto tudo faz sentido neste interior.

Esta necessidade de oferecer materiais sustentáveis não toldou o espírito dos designers de interior da Mazda que mantiveram a abordagem minimalista de outros produtos Mazda e os principais comandos mantiveram-se com controlos físicos.

Outra coisa que tenho de destacar é a consola central. Em primeiro lugar porque não inventaram na hora de fazer uma alavanca para colocar a caixa no habitual PRND de uma qualquer caixa automática. Não há botões, não há rotativos ou outra qualquer invenção… uma alavanca e pronto!

Depois, não há ecrãs com grafismo vindo do “Star Wars”, mas sim um ecrã digital com os instrumentos tradicionais. Ou seja, a Mazda a tratar-nos como pessoas normais que optaram por um carro elétrico.

Há ecrã de 7 polegadas de série para o sistema de info entretenimento e outro igual para a climatização. Mas misturando digital com analógico, desperdiçando muito do espaço do ecrã. 

Nem tudo é perfeito, claro. O banco traseiro é um pouco acanhado pela forma da carroçaria e da utilização das portas suicidas. Distâncias maiores serão complicadas para mais que dois e não podem ser matulões ou matulonas. Portas que descartam o pilar B, mas obrigam a portas grossas que causam alguma claustrofobia para quem viaja no banco traseiro – e também para o condutor devido à linha de cintura elevada e à forma da traseira. A bagageira tem 366 litros de capacidade e situa-se a par de modelos como o Ford Focus ou o Opel Astra.

FALEMOS DE TÉCNICA DO MX-30

A Mazda entende que a corrida desenfreada à autonomia faz pouco sentido quando nas mãos tem um estudo onde as pessoas não fazem mais de 50 km por dia. Vale o que vale, mas baseado nesse estudo o MX-30 tem uma bateria com apenas 35,5 kWh. Contas feitas, é a mesma capacidade do Honda e e 30% menos que o Peugeot e2008. 

Assim de repente parece que o MX-30 é mais leve que ambos. Pois… não é!

O pacote de baterias que está no fundo da plataforma do Mazda3 adaptada, entre os dois eixos, pesa 310 kgs e com 1645 kgs de peso total, o Mazda consegue fazer pior que o Peugeot (mais 25 kgs) e 120 kgs que o Honda! Honda e que é bem mais pequeno que o MX-30.

Na frente está o motor elétrico e todos os controladores. O motor síncrono tem 143 CV e a tração é feita às rodas da frente. O eixo dianteiro tem um sistema McPherson enquanto na traseira está um eixo de torção.

O chassis foi pensado para ter uma excelente rigidez torsional – por isso pode ter portas suicidas e portas sem moldura – tendo conseguido sair dos testes EuroNCAP com as valiosas cinco estrelas.

E COMO É O MAZDA MX-30 EM ESTRADA?

Lamento dizer que acabará dececionado com as performances do MX-30. O facto de ser mais pesado que os seus rivais, impede que a aceleração 0-100 km/h seja melhor que 9,7 segundos com uma velocidade máxima de 140 km/h. O copo meio cheio pode ser visto pelo facto do carácter do motor ser calmo e com este tipo de performances, não derrete a carga da bateria mais depressa do que dizer “o Maxda MX30 tem uma autonomia de 200 km que é mais que suficiente para os movimentos pendulares casa-trabalho-casa”. Mas mais importante que isso é a recuperação de aceleração 30 e os 65 km/h, essencial em cidade. E aqui o Mazda MX-30 é muito bom com um tempo de 2,6 segundos. 

Os Mazda são reconhecidos pela sua leveza, com conforto, mas rigor no comportamento e a excelente caixa manual Skyactiv. O MX-30 não é leve nem tem caixa manual, pelo que tem de seduzir de outra forma. Mas deixe-me dizer-lhe que, como seria de esperar, o MX-30 não iguala as sensações experimentadas num CX-5 ou no excelente Mazda3.

Seja como for, o MX-30 é um carro onde nos sentimos bem e a Mazda para não o afastar muito da restante gama, oferece o mesmo sistema de vectorização de binário. O resultado desta aplicação é uma capacidade em curva neutral, eficaz e com a emoção de uma roda a derrapar com a aplicação do binário de forma imediata à saída das curvas. 

Como disse acima, não é um MX-5, mas o MX-30, comparando com as propostas elétricas do mercado, é dos melhores a curvar e dos mais divertidos de conduzir. E consegue ser confortável como deve ser um Mazda. Tem, apenas, dificuldades em lidar com as lombas (as bandas sonoras) e aqui e além percebe-se que o carro é tão rijo que a estrutura propaga algumas vibrações. 

Outra das particularidades reside na regeneração da travagem. Há cinco modos de regeneração comandos pelas patilhas atrás do volante. No nível mais forte, o MX-30 consegue funcionar apenas com o acelerador dispensando o pedal de travão. Só vai precisar dele para imobilizar o carro.

Tenho de dizer que gostei do sistema, é bem mais intuitivo que a maioria dos modelos elétricos e ajuda a prolongar um pouco a autonomia. Vale a pena usar!

O MX-30 é silencioso como normal, mas a Mazda colocou um sintetizador de som que oferece um ruído falso de motor a gasolina na aceleração e na travagem. Só funciona quando carregamos a fundo no acelerador ou quando travamos. 

Dados práticos: o carro tem carregador rápido e recupera entre 20 e 80% da carga em 30 minutos, num carregador normal são precisas 3 horas. Recomendo, porém, a compra de uma “Wallbox”.

O QUE É QUE EU PENSO DO MAZDA MX-30?

Dizer que fiquei boquiaberto com o MX-30 não seria honesto da minha parte. Este Mazda é, antes de mais, uma declaração sobre aquilo que a casa japonesa entende ser um carro elétrico. A preocupação não está na autonomia, mas na forma como se usa a energia disponível e a tecnologia que se oferece. Mas a Mazda preocupou-se em reduzir a bateria para baixar o preço, mas não ganhou no peso nem na capacidade de curvar tão bem como um CX-5, por exemplo. Tem um estilo delicioso com as portas suicidas, mas o desenho coloca alguns problemas de visibilidade e de claustrofobia no interior. O interior é inteligente, bem pensado e bem feito e, apesar de tudo, continua a ser um crossover que curva de forma eficaz. É verdade que a autonomia é curta – curiosamente, nunca tive a ansiedade de ficar sem bateria e acabei por carregar aqui e ali a bateria aos 5 minutos de cada vez e a coisa fez-se – e o comportamento não é aquele que se espera de um Mazda. Mas como carro elétrico, eu gostei muito e só é pena que o carro seja caro. Felizmente a Mazda oferece uma campanha de financiamento que reduz 6.700 euros ao preço que cai, assim, de 36.240 para uns mais simpáticos 29.540 euros que custam 377,93 euros por mês durante 48 meses e a última prestação de 16.542 euros. 

Ficha técnica

Motor: elétrico síncrono permanente; Potência máxima (CV): 143; Binário máximo (Nm): 264; Transmissão: dianteira, caixa de única velocidade; Direção: Pinhão e cremalheira assistida eletricamente; Suspensão (ft/tr): independente tipo McPherson/eixo de torção; Travões (fr/tr): Discos ventilados/discos; Prestações e consumos Aceleração 0-100 km/h (s): 9,7; Velocidade máxima (km/h): 140; Consumos (kWh/100 km): 19; Dimensões e pesos Comp./Lar./Alt. (mm): 4395/1795/1570; Distância entre eixos (mm): 2655; Largura de vias (fr/tr mm): nd; Peso (kg): 1660; Capacidade da bagageira (l): 366; Capacidade da bateria (kWh): 35,5; Pneus (fr/tr): 215/55 R18; Capacidade da bagageira (l): 391; Preço da versão ensaiada (Euros): 29.540

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