Elétricos

Ensaio VW ID.3: será este o elétrico… do povo?!

Para a Volkswagen (que traduzido significa “Carro do Povo”), este é o automóvel do futuro. Para a casa alemã, os automóveis do futuro, que está já ao virar da esquina, serão assim. Um carro compacto e 100% elétrico, prático e giro, enfim, um automóvel capaz de seduzir o mais empedernido amante dos motores de combustão interna. E sim, o ID.3 pode muito bem ser o Carocha dos tempos modernos, o “carro do povo” para o século XXI. Pode não parecer… mas faz todo o sentido! 

Rating: 4.5 out of 5.
  • A Favor – Comportamento, agilidade, maneabilidade, insonorização, autonomia e recarregamento
  • Contra – não há botões físicos, qualidade em baixa, falta de um nicho para guardar os cabos

O Dieselgate empurrou a Volkswagen para os braços da mobilidade 100% elétrica, a única forma de embrulhar o escândalo e fazê-lo desaparecer empurrado para a coluna dos prejuízos (mais de 30 mil milhões de euros) no balanço das contas.

Podemos torcer o nariz às trapalhadas e ficar insatisfeitos com o sucedido, mas a realidade é que, para a Volkswagen, poderá ter sido a charneira que necessitava, enfim, o empurrão preciso para mudar a face da marca de Wolfsburg.

Recordo os tempos em que a VW tentou reagir no imediato com a tentativa de eletrificar alguns modelos como o Up e o Golf. 

Belos esforços, mas com o destino traçado à saída da fábrica: impossíveis de serem rentabilizados e sempre inferiores aos “demónios” norte americanos da Tesla.

Com o programa ID, a Volkswagen abraçou, totalmente, a mobilidade 100% elétrica e o primeiro resultado é este ID.3.

O ID.3 É MAIS UM GOLF TRAVESTIDO DE ELÉTRICO?

Não senhor! O ID.3 tem uma plataforma dedicada a veículos 100% elétricos alimentados a bateria. 

Por outro lado, o ID.3 é um carro compacto que é mais pequeno que o Golf. Espantado?! Pois, o carro parece ser maior… mas não é!

O ID.3 está pensado e desenhado para ser um compacto familiar com capacidade de transportar 4 ou 5 pessoas e as suas bagagens durante mais de 400 km. Promessas que, naturalmente, fiz questão de comprovar.

Ah! e já agora, a cena do preço em conta não é uma total balela, pois o ID.3 arranca nos 33.448 euros ficando o modelo deste ensaio nos 36.206 euros. Não é pechincha, mas para um carro elétrico é um belo preço.

PORQUE O ID.3 É TÃO DIFERENTE EM TERMOS DE ESTILO?

Os homens do estilo sentem-se livres quando têm de desenhar um automóvel 100% elétrico. Libertos de tantos constrangimentos, poderiam ter feito um carro (ainda) mais giro. 

Porém, como referi acima, este é o “elétrico do povo”, tem de satisfazer muitos gostos e paladares. Mesmo assim, o capô curto, a frente a sorrir, um para brisas inclinado, pilar C contrastante com o resto da cor do carro, uma traseira fechada, oferecem uma imagem dinâmica e sedutora.

E a verdade, verdadinha, é que o ID.3 faz virar cabeças e ganha simpatia por onde passa. E foi isso que a VW quis ao desenhar o ID.3, oferecendo-lhe um código de boas vindas personalizado: ao cair da noite, as luzes e a faixa LED na frente do carro são ativadas assim que quem tiver a chave do carro no bolso se aproxime. Uma coreografia luminosa que assegura o efeito “high tech”. 

O carro é diferente e faz muito bem em ser, entendo que está muito bem conseguido e é uma mais valia!

E COMO É O INTERIOR DO ID.3?      

Poderei descrever em duas palavras: espaçoso e minimalista. A habitabilidade é verdadeiramente surpreendente num carro que tem apenas 2 cm a menos que um Golf (4,26 contra 4,28 metros. O segredo?

Está na distância entre eixos que coloca o ID.3 a par de um Passat. Não acredita? Pegando na fita métrica, o ID.3 tem uma distância entre eixos de 2770 mm. Ou seja, são mais 13 cm que um Golf (!) e apenas 2 cm menos que um Passat!!!

Ou seja, quem viaja dentro do ID.3, no banco traseiro, ficará feliz com o espaço para arrumar as pernas, claramente acima do que é comum no segmento.

Por outro lado, os bancos dianteiros têm dois apoios de braços que ajudam a aumentar o conforto de quem segue à frente.

Espaços para arrumação não faltam, apostando a VW na versatilidade: as portas têm bolsas muito generosas e no túnel central (que não existe) está um enorme espaço de arrumação.

Não falta o carregador do telefone por indução e, num toque de humor, temos dois pedais “stop” e “forword”. Ou seja, o pedal do travão tem o sinal de pausa e o acelerador tem o sinal de avançar.

A partir daqui tenho de dizer que a Volkswagen poderia ter ido mais longe… e menos longe. Eu explico!

O minimalismo e a forma como tudo está arrumado leva-nos ao universo Tesla, mas os homens da VW não conseguiram – ou não os deixaram – ser mais ousados. Por exemplo, oferecendo um ecrã central maior.

O que está no ID.3 é sensível ao toque e concentra todos os comandos – climatização, áudio, info entretenimento, conectividade, recarga da bateria, tudo! – mas, o tamanho não é muito maior que o ecrã de um Golf! Claramente, o ecrã deveria ser muito maior.

Depois, os controlos sensíveis ao toque são um pouco confusos e raramente funcionam à primeira. Os do volante tem “force feedback”, ou seja, emitem uma força que alerta para a sua utilização, os outros… não. 

Umas vezes funcionam à primeira, outras nem por isso e acabamos por nos distrair, o que não é uma boa ideia.

Por outro lado, sendo este um VW, esperava um pouco mais dos materiais utilizados no interior, mais duros que o espectável. Até o tecido dos bancos é menos denso que o habitual na casa alemã.

Sim, é verdade, a VW diz que esta situação se deve a uma escolha “étnica”, recusando usar materiais oriundos do mundo animal e usando materiais com elevado nível de reciclagem.

Finalmente, dizer que o carro é confortável com bancos relativamente firmes como é habitual nos carros alemães e a posição de condução é muito boa. O volante tem uma boa gama de ajustes e como não há caixa de velocidades, a coluna de direção que tem o painel de instrumentos digital, alberga o comando para fazer o carro andar para diante ou para recuar.

Tudo muito simples, o que não é verdade quando falamos dos comandos dos vidros ou do sistema de iluminação. Este último é feito com comandos sensíveis ao toque, mais barato que fazer controlos físicos. Quanto aos primeiros, a luta pela poupança de alguns euros levou a VW a agrupar os quatro vidros num par de botões, tendo de carregar no botão Rear para abrir os vidros traseiros.

E COMO É EM UTILIZAÇÃO O ID.3?

A plataforma MEB do grupo VW dedicada a modelos elétricos é a base do ID.3 e coloca a bateria entre os dois eixos, distribuindo o peso da melhor maneira e mantendo baixo o centro de gravidade. 

Isto é importante porque são dois fatores críticos quando falamos de carros 100% elétricos. A bateria representa 20% do peso total do ID.3, pelo que a judiciosa colocação das células é importante.

O ID.3 tem baterias com 7, 9 ou 12 células de iões de lítio, ou seja, 45, 58 ou 77 kWh, enquanto o motor tem 204 CV e 310 Nm.

Como sucedia com o Carocha, o “carro do povo”, o ID.3 tem “tudo atrás”. A grande diferença entre o “boxer” de 4 cilindros do Carocha e o motor elétrico síncrono de íman permanente é que este chega às 16 mil rotações. O motor do Carocha fazia jm terço dessa rotação.

Quando desaceleramos, o motor inverte o funcionamento e transforma-se num gerador que converte energia cinética em eletricidade que carrega a bateria.

A carga da bateria pode ser feita através do carregador interno de 11 kW e uma ficha CCS que permite a ligação aos terminais de carregamento rápido de corrente contínua.

O ID.3 tem três modos de condução: Eco, Comfort e Sport. O quarto modo é o Individual, que permite adaptar o carro aos desejos do condutor em termos de assistência à direção, resposta do acelerador e auxiliares de condução.

O carro, não tendo mecânica com combustão interna, (quase) não faz barulho. O motor elétrico quase não se percebe do exterior e por isso há um altifalante colocado atrás do para choques traseiro que emite um som (tipo Galática) que avisa os mais incautos… ou surdos! Outra coisa que o ID.3 oferece é o controlo por voz. Não é tão escorreito como o MBUX da Mercedes, mas quem estiver habituado à Siri ou à Alexa, rapidamente acerta o passo.

A iluminação ID.Light é uma “nova” tecnologia, instalada de série no ID.3. A VW descreve como uma “ajuda intuitiva de condução de forma ligeira”. 

Em termos concretos, estamos a falar de uma fina faixa de LEDs integrada na base do para-brisas, que emite sinais direcionados e coloridos relacionados com a condução e o equipamento: uma luz que circula da direita para a esquerda para indicar uma curva a seguir dada pelo sistema de navegação ou flashes vermelhos intensos para avisar de um perigo e convidar o condutor a travar. Uma característica divertida, mas nada útil ou verdadeiramente benéfica para a condução.

Não é preciso chave para entrar e o ID.3 coloca-se pronto para arrancar assim que entra dentro do carro. Coloca o pé no travão, carrega no botão D e o ID.3 avança.

O carro tem uma excelente visibilidade, as suas dimensões são ideais para andar em cidade com um diâmetro de viragem de 10,2 metros, possível pela ausência de motor e caixa de velocidades.

No que toca às performances, o ID.3 chega dos 0-100 km/h em 7,3 segundos com uma velocidade máxima de 160 km/h. Ou seja, perfeitamente capaz de encarar percursos citadinos e extraurbanos.

E COMO É QUE O ID.3 SE COMPORTA?

O carro é muito suave, silencioso e refinado e é divertido explorar o “tudo atrás” do ID.3. Muito por culpa do binário instantâneo que permite alguma diversão. Além de curvar bem e ser muito divertido, o ID.3 é capaz de longas tiradas e mesmo que os mais de 400 km de autonomia sejam uma utopia, a verdade é que é possível chegar um pouco mais além dos 300 km.

Mais! Se ligarmos todas as ajudas á condução e respeitamos as velocidades legais, como deve ser, o ID.3 mostra-se um excelente devorador de quilómetros que vai aumentando a autonomia consoante as capacidades do condutor. Sem esquecer o modo B que aumenta a capacidade de regeneração e quase que evita usar o pedal de travão. O modo D desliga o motor e deixa-o funcionar livre quando levantamos o pé, o modo B faz exatamente o contrário e inverte o funcionamento para gerar energia.   

E não se preocupe que este modo B tem uma particularidade: tendo uma potência de desaceleração de 0,3G, consegue uma excelente desaceleração e mesmo que carregue no pedal de travão, o sistema só deixa os travões funcionarem se a desaceleração do sistema não for suficiente. Ou se carregar no pedal como se não houvesse amanhã!

Não se preocupe… pode ser um nadinha estranho, mas funciona muito bem.

Finalmente tenho de lhe dizer que o ID.3 tem dois cabos para carregamento, são precisas 30 horas para o carregar na totalidade numa tomada doméstica, 6 a 8 horas numa “wallbox” de 11 kw e 30 minutos num carregador rápido de 150 kW. Pena éa VW não se ter lembrado de arranjar um espaço para arrumar os cabos…

O QUE É QUE EU PENSO DO ID.3?

Será o VW ID.3 o novo “Volkswagen”, o carro do povo elétrico? Eu acredito que sim. A VW acertou em cheio neste ID.3 e tirando as dificuldades dos carregamentos – embora o ID.3 consiga carregar 100 kW em corrente contínua – é a alternativa ideal para os atuais modelos a gasolina ou diesel. Para mim é um dos melhores modelos 100% elétricos, pois está bem pensado, melhor executado, ágil em cidade, preparado para uma utilização fora do casco urbano, fácil de conduzir, silencioso e com um bom comportamento. A autonomia ultrapassa os 300 km e ode chegar a 360 km com algum cuidado. Um excelente automóvel 100% elétrico.

Ficha técnica

Motor: elétrico síncrono de íman permanente; Potência máxima (CV/kW): 204/150; Binário máximo (Nm): 310; Transmissão: traseira relação única; Direção: Pinhão e cremalheira assistida eletricamente; Suspensão (ft/tr): independente tipo McPherson/Independente multibraços; Travões (fr/tr): Discos ventilados/tambores; Prestações e consumos Aceleração 0-100 km/h (s): 7,3; Velocidade máxima (km/h): 160; Consumos (kWh/100 km): 15,5; Dimensões e pesos Comp./Lar./Alt. (mm): 4261/1809/1568; Distância entre eixos (mm): 2770; Largura de vias (fr/tr mm): 1536/1525; Peso (kg): 1720; Capacidade da bagageira (l): 385/1267; Bateria (kWh): 62; Pneus (fr/tr): 215/50 R19; Preço da versão ensaiada (Euros): 33.854