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Conheça a história do Mercedes português que fez 1.9 milhões de quilómetros e está no Museu Mercedes

O Museu Mercedes-Benz, em Estugarda, tem muitos veículos marcantes para mostrar aos milhares de visitantes que recebe todos os anos (850 954 em 2019). 

Um desses é um Mercedes-Benz 200D de 1988, um táxi português que foi assistido na Sociedade Comercial C. Santos e que impressionou a Daimler. Conheça a história deste veículo na primeira pessoa, por José Mota Pereira, o motorista que o conduziu, durante 13 anos, na região do Porto.

O Mercedes-Benz 200D W124 percorreu 1,9 milhões de km ao longo de 13 anos como táxi, no Porto, nas mãos de José Mota Pereira. 

No âmbito da rubrica SocInterview, a Sociedade Comercial C. Santos entrevistou José Mota Pereira (Mota & Pires, Lda.). Na entrevista, o profissional, que, aos 77 anos, continua a trabalhar, desvenda o desenrolar do processo da ida do seu táxi W124 de 1988 para o Museu da Mercedes-Benz, onde está desde 2006. 

“A Mercedes procurava, segundo depois eu soube, um carro que tivesse muitos quilómetros, e, naturalmente, se calhar também o estado dele, o estado de conservação do carro. As duas coisas terão motivado a Mercedes a interessar-se. Depois, mais à frente, entraram em contacto comigo para negociarmos o carro e eu dispensar o carro à Mercedes”.

Na altura, a Daimler pediu à Mercedes-Benz para ver junto da rede oficial de oficinas da marca os registos de quilometragem das viaturas assistidas, tendo chegado a José Mota Pereira através da Sociedade Comercial C. Santos. O Mercedes-Benz 200D W124 de 1988 foi adquirido pela Mercedes-Benz por 5000 euros, o valor comercial da viatura em 2006. 

O automóvel tinha, entretanto, sido substituído, pelo táxi que José Mota Pereira conduz atualmente (um Mercedes-Benz Classe E W210 de 2001, que já tem quase a mesma quilometragem do veículo que está agora no museu da marca). O W124 era, em 2006, utilizado por um dos dois filhos do motorista de táxi. “Tinha-lhe oferecido o carro porque ele adorava aquele carro. O meu filho mais velho dizia ‘tu não tens garagem suficiente para guardar o carro, vais ter dificuldades, deixa ir o carro, porque ao menos, assim, vamos à Alemanha dar um passeio e vemos o carro lá na Mercedes, porque eles lá vão estimá-lo melhor do que tu estimas aqui”.

Tomada a decisão de venda, a história teve mais um foco de interesse. É que o normal nestas situações é os veículos serem transportados para o Museu Mercedes-Benz por camião, dado o estado de conservação não ser o melhor. Mas não no caso do 200D de José Mota Pereira. O técnico da Daimler que veio buscar a viatura ao Porto cancelou o transporte por camião assim que viu o excelente estado de conservação, tendo decidido, no momento, que ia regressar à Alemanha a conduzir. E a viagem correu lindamente.

Para José Mota Pereira, recordar o W124 é como falar de um membro da própria família. É um carro que fez parte da sua vida profissional e pessoal e por isso é que ainda hoje automóvel muito especial para o motorista de táxi, que até quase que se comove, quando fala no automóvel. “Evito muitas vezes falar muito desse carro, porque às vezes a gente faz um papel assim um pouco chato de emocionar-se por causa de um carro. Não é o carro. O carro fez parte da nossa vida e foi uma peça de ferramenta que nos ajudou”, conta. “Acompanhou-me em várias situações difíceis, muito difíceis e que ele é que suportou a carga maior”, acrescenta”, explica José Mota Pereira, depois de sublinhar que “aquele carro nunca andou em cima de um camião por avaria”.

A relação que tem com a Mercedes-Benz e com a Sociedade Comercial C. Santos é histórica e de proximidade. Aliás, o Mercedes-Benz Classe E W210 de 2001 (o já referido automóvel que já tem quase a mesma quilometragem do veículo que está agora no museu da marca), vai pelo mesmo caminho em termos de bom estado de conservação.

“As pessoas não acreditam, por exemplo, que o tablier é de origem e nem que aquela consola de madeira é de origem. Eu às vezes digo assim: Se calhar, tenho que dar aqui umas riscadelas, para perceberem que isto é de origem”, brinca Mota Pereira.

O motorista de táxi não se poupa a elogios. “Sou muito estimado na Mercedes e as pessoas são muito atenciosas comigo… Acho que são com toda a gente. É uma casa que respeita muito quem lá vai com sua viatura. As pessoas são muito respeitadas”.