Elétricos

Ensaio Fiat 500e: sedutor como sempre, eficiente como se quer

Foi o automóvel que nos anos 50 do século passado colocou nas mãos dos italianos uma solução de mobilidade, renasceu em 2010 como um citadino Premium acessível e charmoso, chegou a 2020 como o símbolo da revolução elétrica dos italianos. O 500 é um carro absolutamente delicioso que ficou ainda mais interessante porque oferece motorização 100% elétrica. Perdeu charme por causa disso? Ou será um catalisador para a mobilidade elétrica?

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  • A Favor – Comportamento, Conforto, Equipamento, Autonomia
  • Contra – Tempo de carga em tomada doméstica, habitabilidade

O Fiat 500 é um verdadeiro caso de estudo porque é o único modelo nascido da ideia de fazer regressar ícones do passado a ter sucesso. Perdão, imenso sucesso! E se nos anos 50 era a forma do povo italiano ter mobilidade, já bem dentro dos anos 2000 apareceu como uma peça de design que os adeptos deste tipo de carro adotaram não se importando de pagar mais por isso.

A Fiat foi lançando versões, variantes, edições especiais, ligou-se a marcas italianas de fama planetária e os famosos – pelo preço e prestações – modelo produzidos pela Abarth, deram o toque de excentricidade sempre necessário.

E o sucesso foi-se empilhando, alimentado pelas renovações cirúrgicas que foram sendo feitas a um modelo que nasceu abençoado. 

Quando os responsáveis da Fiat em Turim decidiram aceitar a ideia de tornar o 500 num carro elétrico, mantendo o 500 com motores de combustão interna, foi entregue ao departamento técnico… uma folha em branco! Apenas uma imposição: o charme que lhe esculpiu o sucesso e o estatuto de vedeta da casa italiana.

E QUE DIZER DO ESTILO DO 500e?

Os italianos têm um bom gosto absolutamente incrível – sim também fazem umas coisas que Valha-nos Deus! – e o novo 500 é absolutamente delicioso. Os detalhes são mais que muitos e perante nós temos um carro totalmente novo. Mas ninguém duvida que é um… 500!

As cavas das rodas musculadas, a frente com os faróis cortados pela linha de cintura que recorta, também, a abertura do capô e que serve de base para os puxadores das portas, escondidos. Tudo é pensado e feito para modernizar o 500 se que deixe de ser o 500. E a Fiat não nos emprestou a versão de quatro portas. Sim, o 500 tem agora no lado direito um postigo que se abre juntamente com a porta e melhora o acesso. 

Seja como for, gosto muito deste 500 que será, sempre, um automóvel elétrico.

Enfim, o carro está ainda mais sensual e fica só um pequeno reparo: o logótipo 500 na frente do carro é exagerado. Ficava melhor um FIAT. Minha opinião, claro.

E COMO É O INTERIOR DO 500e?

Aqui percebemos que estamos perante um carro totalmente novo, pois face ao modelo que está à venda com motores de combustão interna, tudo está melhor, mais refinado e revisto para maior conforto a bordo e, sobretudo, para melhorar a ergonomia.

O que vemos no 500e reflete a dezena e meia de anos de estudo e de recolha de opiniões de jornalistas, utilizadores e apaixonados pelo carro, sabendo onde estão os defeitos e as virtudes do habitáculo do 500.

Começamos com a posição de condução, mais baixa e onde a sensação de falta de espaço desapareceu. Aquela sensação claustrofóbica desapareceu graças ao desenho do tabliê e, sobretudo, dos forros das portas.

Há um comando para abrir as portas paralelo ao habitual gatilho mecânico, mas situado mais abaixo. Os apoios de braço estão mais bem desenhados e a coluna de direção tem regulação em altura e profundidade.

Com a ausência da alavanca da caixa e de túnel central, libertou espaço vital para uma consola central inteligente. Tem um porta luvas e três botões, que estyão ao alcance dos dedos de forma perfeita, que são essenciais: seleção do modo de condução, o travão de estacionamento e o controlo do volume do sistema áudio. Há, também, um porta-garrafas.

Ao contrário dos bancos do atual 500, os do 500e foram bem pensados e executados, não sendo nem demasiado curtos, finos ou desconfortáveis.

Os designers de interior da Fiat exploraram cada centímetro quadrado, embora não haja milagres perante um carro necessariamente pequeno pertença do segmento B. Como já disse, na frente não existe constrangimentos, atrás tudo é mais acanhado.

As costas do banco traseiro estão demasiado direitas – para não roubar demasiado espaço à mala – e não há muito espaço para arrumar as pernas. Se o condutor for grande, é quase impossível alguém com mais de 1,60 metros conseguir fazer qualquer trajeto.

A bagageira também não é grande… são 185 litros que podem chegar a 550 com o rebatimento do banco que é feito em 50/50 e não produz um fundo plano. É o que é e num carro citadino não vale a perna perder tempo com argumentos sem sentido.

Dizer que o tabliê perde o seu lado revivalista e passa a ser mais pratico e mais agradável à vista. O volante é multifunções, o painel de instrumentos é digital com 7 polegadas e no meio do carro está outro ecrã de 10.15 polegadas para o sistema de info entretenimento. Pode carregar o seu smartphone através de indução. O sistema de climatização pode ser controlado por botões colocados nas imediações da cavidade do sistema de carga sem fios.

Aplauso para a Fiat que modernizando o 500 não foi tão longe como a Honda no seu modelo e. O Apple Car Play e o Android Auto estão disponíveis sem fios. Isto porque no 500e utiliza a mais recente versão do sistema Uconnect, feita com base no Android. E, desta feita, a Fiat não deixou créditos por mãos alheias: um processador de 4 núcleos dá a velocidade necessária para tudo ser feito de forma rápida. Quando entrar no carro, assim que o seu rabo tocar o banco, já todos os dispositivos reconhecidos estarão ligados. Menos de 5 segundos!

O assistente de voz funciona bem, mas vem a caminho a Alexa da Google. O ecrã do painel de instrumentos é nítido e tudo funciona de forma perfeita.

E posso também dizer que apesar do domínio do plástico, o 500e tem materiais de qualidade, uma montagem correta e uma sensação de qualidade e requinte é servida no 500e.

E A TECNOLOGIA DO 500e?

A Fiat deu um enorme salto com o 500e e o citadino passa a fazer parte do clube dos modelos com condução autónoma, sendo que no Fiat é de nível 2. Junto com essa função vieram várias tecnologias de ajudas à condução e de segurança. 

Destaco o cruise control adaptativo (que acelera e trava consoante o tráfego de forma autónoma), travagem autónoma de emergência em caso de colisão e manutenção na faixa de rodagem, monitorização do ângulo morto e da condição de alerta do condutor.

Há câmaras 360 graus para um estacionamento preciso, os máximos são automáticos e circulando até 20 km/h, o carro toca uma melodia de um filme de Felini no sistema obrigatório para alerta dos peões.

E A MOTORIZAÇÃO ELÉTRICA DO 500e?

Em primeiro lugar dizer que a plataforma é uma profunda evolução da plataforma do 500 (que ainda está á venda) e o facto da Fiat ter arrumado um motor elétrico com 118 CV mais as baterias e todos os controladores sem beliscar bagageira e espaço interior, tem de ser elogiado.

A bateria fornecida pela Samsung pesa 300 kgs e tem 42 kWh (37,3 kWh utilizáveis) e está instalada entre os dois eixos, o que provocou alterações nas embaladeiras e nas diversas longarinas além dos pontos de fixação dos bancos.

Por tudo isto, o carro é mais comprido 5 cm e ganha 2 cm na distância entre eixos. O trabalho de engenharia é brilhante com uma repartição de pesos de 48/52% e um baixo centro de gravidade.

O 500e tem um carregador de 11 kW e um carregador rápido de 85 kW, ou seja, o pequeno Fiat é um matulão no que toca à bateria e à possibilidade de carga rápida. 

Quanto ao motor síncrono de íman permanente, feito pela britânica GKN em… Itália(!), é versátil e pode ser usado assim, a solo, ou num esquema com dois motores (um em cada eixo. Mas também num esquema híbrido Plug-in.

Pesa apenas 60 kgs e funciona a temperaturas entre -30 e + 60 graus, sendo arrefecido por líquido. O motor integra a transmissão de relação única e o módulo inversor, conversor e carregador (que pesa cerca de 30 kgs), está ligado diretamente ao motor.

Este bloco com todos estes acessórios é acoplado ao eixo dianteiro de uma forma convencional. Ou seja, não houve necessidade de algo especial para montar o 500e.

Curioso, levantei o capô e fiquei impressionado com o tamanho reduzido de todo o sistema. E pensei… um motor de combustão interna com sistema híbrido ou híbrido Plug In cabe tranquilamente. Será que a Fiat está a pensar em fazer algo diferente com o novo 500?

E NA ESTRADA COMO É O 500e?

Curiosamente, descontando as versões Abarth, este é o 500 mais potente de sempre. Sim fica aquém dos rivais (Honda e e Mini) mas a Fiat ainda não disse tudo, até porque a GKN já veio dizer que este motor pode ultrapassar os 200 CV. Não vos diz nada? Abarth, não faz soar campainhas? Pois… aguardemos.

O 500e tem três modos de condução: Normal, Range e Sherpa. No primeiro o carro reage como um automóvel normal, quase sem travão motor, parecendo muito com um veículo com motor térmico. E para fazê-lo ainda mais parecido com um carro de caixa automática, basta levantar o pé do travão e o 500e avança.

No segundo modo, nota-se de forma mais sensível a regeneração de energia e quase que funciona com um pedal, o do acelerador. Quase não é preciso usar o pedal do travão. Com o modo Range, é desativada a função que faz o carro avançar quando se levanta o pé do acelerador e é capaz de imobilizar o veículo numa subida, sem ser necessário tocar no pedal do travão.

No terceiro modo, a velocidade é limitada aos 80 km/h e o ar condicionado e o aquecimento dos bancos são desligados. Aqui a primazia é dada à autonomia.

Curiosamente, o 500e nunca fica submotorizado, ou seja, a resposta é sempre a mesma, o que muda é o carácter do carro.

O Fiat 500e está muito melhor com os 300 kgs a mais da bateria, sendo mais eficaz em curva e passando por lombas e buracos com maior suavidade e requinte que anteriormente.

E falo depois de andar com um carro com jantes grandes e pneus largos. Que ajudam o peso da bateria e o baixo centro de gravidade a colar o 500e à estrada. A suspensão está desenhada para lidar com o peso superior a 1400 kgs – curiosidade: pesa mais 400 kgs que um 500 normal e mais… 900 kgs que o modelo de 1957! – permite que o 500e seja muito eficaz em curva com uma direção precisa e sensível, algo muito bem vindo.

Não há dificuldades com a aderência e a saída de frente só acontece na base do exagero. Em piso molhado, o binário do motor elétrico coloca alguns problemas, mas nada de preocupante. Mas haverá alguma tendência para patinar as rodas num carro que chega dos 0-50 km/h em… 3 segundos! O 0-100 km/h é feito em 9 segundos, ou seja, apenas um segundo mais que o 500 com tratamento Abarth e motor de 140 CV.

A velocidade máxima é de 150 km/h, mas até lá, o motor é uma delícia tal a progressividade e a capacidade de oferecer arranque e velocidade seja em que ambiente for.

E sem as vibrações dos motores térmicos e as hesitações das caixas de várias velocidades, o 500e acaba por ser muito divertido, quase um “pocket rocket” ou desportivo de bolso. Acreditem! O 500e é mesmo desportivo!

No que toca à autonomia, confirmei que em cidade temos bateria para 243 km – o que para uma deslocação pendular de 30 km pode andar uma semana antes de ter de o carregar – enquanto que em estradas nacionais temos autonomia de 178 km. Na autoestrada, obviamente, as coisas são diferentes e fica-se a autonomia pelos 150 km.

A autonomia é mais que suficiente para uma utilização quotidiana. Os tempos de carga variam muito, de 10 horas para recuperar 30% da carga total numa tomada doméstica (mais de 24 horas para 100%), até aos 50% recuperados em meia hora.

Convirá ter garagem para ter a “wallbox” a 7,4 kWh que recupera de 67 a 100% em 3,5 horas. Obviamente que uma “wallbox” de 11 kWh será a melhor escolha. Mas essa é paga e de que maneira.

O QUE É QUE EU PENSO DO 500e?

Confesso que sempre gostei do 500 e do seu conceito e continuo a pensar que até à chegada do Renault 5 – curiosamente pensado pela mesma pessoa que tratou do 500, Luca de Meo – este é o único modelo revivalista que surtiu efeito. É verdade que para ter tudo aquilo que faz sentido, temos de comprar o La Prima e gastar 33.900 euros, um preço pouco simpático para um citadino. Mas este 500e oferece um carro totalmente novo face ao atual 500 com motor térmico, com mais tecnologia e com a motorização elétrica correta. O preço até pode ser elevado, mas no fim deste ensaio tenho de dizer que é perfeitamente justificado. O equipamento, a tecnologia, a bateria (que só ela é responsável por 25% do preço total do carro), os carregadores poderosos, enfim, tudo justifica o preço final deste 500e La Prima. E, depois, o carro é muito, muito giro e é elétrico!

Ficha técnica

Motor: elétrico síncrono de íman permanente; Potência máxima (CV): 118; Binário máximo (Nm): 220; Transmissão: dianteira, relação única; Direção: Pinhão e cremalheira assistida eletricamente; Suspensão (ft/tr): independente tipo McPherson/eixo de torção; Travões (fr/tr): Discos ventilados/tambores; Prestações e consumos Aceleração 0-100 km/h (s): 9,0; Velocidade máxima (km/h): 150; Consumos (kWh/100 km): 14,0 – 14,4; Dimensões e pesos Comp./Lar./Alt. (mm): 3632/1683/1527; Distância entre eixos (mm): 2322; Largura de vias (fr/tr mm): nd; Peso (kg): 1365; Capacidade da bagageira (l): 185/550; Bateria (kWh): 42; Pneus (fr/tr): 205/45 R17; Preço da versão ensaiada (Euros): 33.900