Elétricos

Automóveis 100% elétricos não vão ter impacto decisivo nas alterações climáticas

Sendo jornalista há já muitos anos, fui ensinado pelos melhores e esse ensino obriga-me a olhar para os assuntos de todos os ângulos. Causou-me dissabores, causa-me dissabores, mas tudo tem duas faces e a mobilidade elétrica não foge a esta realidade.

Muitos órgãos de comunicação social com ou sem agenda própria estão a carregar ao colo a ideia de que a salvação dos ursos polares, do gelo da Antártida e do futuro dos nossos filhos está no automóvel 100% elétrico. 

Está a caminho um “tsunami” de veículos 100% elétricos que vem acabar com a porcaria – opinião recente, pois em mais de 100 anos não houve queixas – dos motores de combustão interna, esses assassinos da sociedade e da humanidade. 

Passamos todos a andar de carro alimentado a eletricidade armazenada em baterias e temos os problemas climatéricos do mundo resolvido.

E há razões para acreditar nisso! Os carros 100% elétricos não têm escape, não deitam nada cá para fora, os travões e os pneus emitem negligenciável CO2 como acontece com o ar condicionado. 

Portanto, são muito mais limpos que um carro com motor de combustão interna. Há um ou outro engulho que é perfeitamente despiciendo como o maior custo de manutenção e da mão de obra por exigir especialização e obrigar o veículo a estar mais tempo imobilizado para diagnóstico nem sempre fácil.

Além disso, a China, colosso financeiro e com o maior mercado mundial de automóveis, abraçou a eletrificação de uma forma enfática e lidera o mundo nesse aspeto. Tal como em alguma zonas dos Estados Unidos da América, como a California, na Noruega onde há chorudos incentivos à compra.

Porém… contas feitas, menos de 1% de todos os carros vendidos mundialmente são 100% elétricos.

Por via destes números, não se percebe como é que a União Europeia quer 30 milhões de carros elétricos na rua em 2030 e a Agência Internacional da Energia (AIE) 130 milhões em todo o mundo. Parece fácil, mas não é: globalmente passamos, ligeiramente, a barreira dos 5 milhões de unidades.

Ora, como passamos de 5 para 130 milhões de unidades em oito anos? Eu não sei, garanto! Vamos esperar para ver… 

Mas uma frase do turco Fatih Birol, diretor executivo da AIE deixa claro aquilo que muitos têm vindo a dizer. “Se pensarmos que podemos salvar o clima com carros elétricos, estamos completamente enganados!”

Como já referi em outro artigo, os preços dos carros 100% elétricos têm vindo a aumentar de preço na Europa e nos Estados Unidos e apesar do aumento das vendas, a verdade é que a maioria dos consumidores continua desconfiado. E onde a liderança dos veículos 100% elétricos é clara, apenas na Noruega, isso deve-se aos massivos incentivos fiscais do Governo.

Outra questão está ligada à utilização dos veículos elétricos e à falta de conhecimento de como usá-los. E isto sucede porque 90% das pessoas que compram um carro elétrico tem em casa um automóvel com motor de combustão interna. Quanto mais não seja, porque o carro é da empresa e quando deseja ir mais longe, é preciso outra opção.

Perante tudo isto, é realmente o carro elétrico a melhor opção para o ambiente? A resposta é simples: sim! Mas…

Por muito que os mais radicais defensores do automóvel 100% elétrico queiram esconder e até digam – erradamente, enganados pelas empresas produtoras de eletricidade e pelos movimentos ambientalistas – que mais de metade da energia é renovável, isso não é verdade.

A produção de energia continua a estar dependente dos combustíveis fósseis e se os veículos 100% elétricos nem sequer têm escape e nada de poluente sai da cadeia propulsora, há muito mais coisas a influenciar.

Desde logo, a produção das baterias gera poluição igual a 8 anos de utilização de um carro a gasolina. Depois, a produção de eletricidade tem vindo a aumentar de forma clara pela maior utilização de veículos elétricos e, sobretudo, pela fabricação de baterias.

E voltamos à Agência Internacional da Energia e a um estudo feito por esta entidade. Segundo esse estudo, um carro elétrico com uma autonomia de 400 km e com a bateria carregada com eletricidade comum (mistura de produção com combustíveis fósseis e renovadas) terá de fazer 60 mil quilómetros até apagar as emissões produzidas pela eletricidade utilizada na produção do veículo e no carregamento.,

Portanto, se um carro 100% elétrico fizer uma média de 10 mil quilómetros por ano, precisa de, pelo menos, seis anos para pagar a sua dívida de emissão de carbono.

Apesar de tudo isto e do evidente aumento da produção elétrica, os automóveis 100% elétricos continuam aquém do necessário para terem impacto mínimo que seja no ambiente.

E se pensarmos que um veículo híbrido Plug In – e aqui com a ressalva, BEM UTILIZADO, ou seja, carregado regularmente e usando a autonomia elétrica na cidade e nos curtos trajetos – com motor a gasolina só emite mais 9 toneladas de CO2 que um veículo elétrico, percebe-se que há outras soluções que a radicalização.

E veja-se o exemplo dos Países Baixos. O Tribunal de Contas decidiu em 2020 que oferecer dinheiro para comprar carros elétricos era um desperdício de recursos público, com o presidente do organismo holandês a referir-se aos subsídios como “uma anedota cara”.

Uma vez mais, pergunto: são os carros elétricos a melhor opção para a defesa do ambiente? Claro que sim! Porém… há mais alguns dados que podem contribuir para a noção que soluções milagrosas e perfeitas… não há!

Um observatório chinês que monitoriza o ambiente naquele país fez um estudo ao maior mercado de veículos elétricos, a China. E a conclusão foi terrível: o aumento da venda de carros 100% elétricos aumentou a poluição no ar! Como?!

A necessidade de mais energia na rede para carregar os veículos vendidos, forçou as velhas e sujas centrais elétricas chinesas alimentadas por combustíveis fósseis a incrementar a produção. O relatório aponta o caso da cidade de Xangai: um milhão de veículos elétricos adicionados ao mercado aumentaria a poluição para níveis que teriam a capacidade de matar quase três vezes mais pessoas do que acontece hoje com as emissões de um milhão de carros a gasolina.

Por isso, é evidente que estamos todos a construir a casa pelo telhado com os anúncios pomposos do fim dos motores de combustão interna por vários países. A Noruega está na linha da frente com a vontade de acabar com os carros com motores de combustão interna já em 2025. Uma falácia evidente!

Primeiro, porque o Estado norueguês oferece até 65 mil euros de incentivos por cada carro. E quando anunciou que os iria retirar, a queda das vendas foi evidente. Estes incentivos vão além do descinto feito na aquisição: os utilizadores podem poupar quase 10 mil euros nas taxas de congestionamento nas cidades como Oslo, podendo conduzir nas faixas “BUS”. O que é interessante, mas está a preocupar os utilizadores dos transportes públicos, pelos atrasos verificados.

Mais que isso, o Governo da Noruega está a investir 5,1 triliões de euros nas próximas décadas no desenvolvimento da rede e das infraestruturas para que a energia seja o mais limpa possível.

Mas um estudo feito recentemente mostra que vai ser muito difícil acabar com os carros a gasolina, pois ficou confirmado que sem os muito generosos incentivos, apenas 9% dos carros vendidos na Noruega seriam elétricos. Bem longe dos mais de 50% atuais. E o estudo feito por um organismo norueguês independente mostra, ainda, que mesmo com a manutenção dos fortíssimos incentivos à compra de veículos 100% elétricos, aumento dramáticos dos impostos sobre os veículos a gasolina e impor limites de emissões mais duros, dificilmente a Noruega vai alcançar os seus objetivos antes de 2050.

Enfim, a ideia errada de que os automóveis 100% elétricos serão dominantes a breve trecho e que vão resolver os problemas das alterações climáticas, é perigosa e levar a uma sensação errada.

E na realidade, os carros elétricos, hoje, continuam a ser comprados pelas empresas e por particulares em países onde há verdadeiros incentivos à compra. Funcionam, mais, como a água benta: comprando carros elétricos, as pessoas acham que estão a fazer a sua parte para salvar o planeta, continuando com as suas habituais atitudes que contribuem para o aumento dos gases de efeito estufa. 

A hipocrisia é grande e fica claro que por muito que se usem carros elétricos não se vai reduzir os impactos das alterações climáticas apenas por ai. Os construtores vão ficar com os cofres vazios, carregados de dívidas e de veículos elétricos em stock.