Antevisão

Estudo indica que a procura por modelos 100% elétricos será maior que a oferta e que os construtores vão perder dinheiro!

O estudo foi feito pelo credenciado instituto alemão “Center of Automotive Management” (CAM)  e lança alguns alarmes preocupantes.

O CAM usou o grupo Volkswagen como exemplo, pois o grupo de Wolfsburg está profundamente empenhado em liderar a mudança para a mobilidade elétrica, investiu mais de 36 mil milhões de euros e está a construir uma gama debaixo da marca ID muito completa.

Ora, apesar de tudo isto, o estudo conduzido pelo CAM deixa muito claro que o grupo alemão não terá capacidade de satisfazer a procura. Tanto se puxa pela eletrificação que a inversão da procura será uma espécie de avalancha que vai atingir os construtores em cheio.

Mas, mais preocupante, é a demonstração que o lucro por veículo vai cair ao longo de muito tempo. Porquê? Porque lado a lado com o massivo investimento na mobilidade elétrica, é preciso continuar a desenvolver e a melhorar os modelos com motor de combustão interna que será, por muitos anos ainda, o “core business” da indústria.

Mas este cenário serve como uma luva a outros construtores, empurrados pelo instinto de sobrevivência dos políticos para os braços da mobilidade elétrica.

O estudo do CAM sugere que todos os maiores construtores vão ter muitas dificuldades em correr lado a lado com o esperado crescimento acelerado da procura pelos veículos elétricos.

Agora, razões para isso? Os motores de combustão interna!

Já experimentou despir as calças enquanto está a correr, mudar de camisola enquanto está a nadar ou trocar de sapatos quando está a andar?

Ora, os construtores acreditavam que a eletrificação seria uma inevitabilidade, principalmente, com o patrocínio da China – a braços com um problema ambiental monstruoso – e da Tesla. Mas esperavam que acontecesse mais tarde, lá para 2050 ou mais tarde.

Com o apertar da malha em termos de regulamentação de emissões, imposição de pesadas multas com limites leoninos e promessa de apertar mais o torniquete sobre o nível de emissões, tudo tem vindo a ser antecipado.

E se os anúncios sobre a passagem a vendas exclusivas de veículos 100% elétricos vão surgindo, há quem se esteja a insurgir contra essa decisão de introduzir regras de tal maneira draconianas que vão extinguir os motores de combustão interna.

Apesar do limite ser 2035, os construtores têm de continuar a desenvolver e a melhorar os veículos de combustão interna. E se esse investimento desacelerou de forma significativa nos últimos anos, a verdade é que continua a ser pesado e o estudo do CAM deixa claro que é um investimento sem perspetivas de retorno!

Ou seja, por um lado o investimento é pornográfico na mobilidade elétrica, por outro há que manter o negócio a rolar e por isso há que produzir e desenvolver novos produtos para manter as fábricas no nível de ocupação mínima para serem rentáveis e sobreviver no mercado.

E para manter quotas de mercado têm de vender modelos convencionais, automóveis híbridos suaves, híbridos, híbridos Plug In e 100% elétricos. Um pesadelo em termos logísticos e um sorvedouro de recursos impressionante. 

Já marcas como a Tesla não têm que se preocupar com nada disso e já leva uns anos de avanço sobre todos os outros. Por isso, essa ideia que os construtores tradicionais rapidamente apanham os americanos é um “wishfull thinking”, não mais que isso.

E vou explicar porquê!

Os analistas do CAM desenharam três cenários para o futuro: em 2030 o mercado dos veículos 100% elétricos atingirá entre 50 e 90% de quota na Europa, na China estará entre os 40 e os 80% e nos Estados Unidos da América andará entre os 40 e os 75%.

Olhando ao “pior” cenário – ou seja, no topo dos intervalos de quota de mercado – e pegando nos dados do CAM, que tomam como exemplo o grupo VW, o construtor alemão poderá perder qualquer coisa como 2,7 milhões de automóveis 100% elétricos em vendas nos três mercados. 

Enfim, como as regras de emissões previstas são uma sentença de morte para os motores de combustão interna, vai forçar os construtores a retirar, particularmente na Europa, os veículos com motores térmicos do mercado. Sem conseguirem recolher lucro ou tão somente o retorno do investimento.

A folha do balanço começa a inclinar para o vermelho e a agulha é definitivamente puxada para baixo pelos elevados custos de produção dos veículos elétricos.

Custos elevados porque devido às suas características, os construtores andam a correr atrás de mais autonomia e tempos de carregamento cada vez menores.

Para isso há que investir nas baterias e por isso mesmo o custo por kWh vai subir dos atuais 40 euros para perto dos 70 euros em 2030. Contas feitas, o lucro por carro pode cair até 25% e com aqueles preços por kWh quando se precisa de mais autonomia, dificilmente – como sempre disse Carlos Tavares – os automóveis 100% elétricos podem ser suficientemente rentáveis.

A Volkswagen quer, assumidamente, bater a Tesla. A marca norte americana vendeu 499.550 automóveis em 2020, a Toyota vendeu 9.386.145 veículos e a Volkswagen produziu 8.965.000 veículos. Pode parecer a pulga a morder o elefante!

Mas se virarmos a folha ao contrário e deixarmos cair tudo o que não seja veículos 100% elétricos, a Tesla vendeu 499.500 carros, a SAIC (chinesa) vendeu 243.000 automóveis e a terceira mais vendida foi a VW com 231.600 unidades, metade do que vendeu a Tesla. Percebe-se, aqui, o tamanho da montanha a vencer e os recursos que vão ser necessários – e o dinheiro que a VW vai ter de perder – para massificar a sua gama de produtos (ID.3 do tamanho de um Golf; ID.4 do tamanho de um Tiguan; ID.5, SUV coupé; ID.6, do tamanho de um Passat; ID.8, um SUV do tamanho do Touareg e o ID.BUZZ). Sem esquecer o modelo de luxo do projeto Trinity.

Enfim, fica evidente que o caminho não é tao linear como se pode pensar e a mobilidade 100% elétrica pode redesenhar o atual mapa de construtores e, quem sabe, afundar alguns pesos pesados.