Clássicos

Toyota Celica TwinCam Turbo: um Grupo B pensado para ganhar em África

Semelhante ao Nissan Silvia 240 RS, o Toyota Celica TwinCam Turbo era um Grupo 4 que foi lançado para o Grupo B com o desejo de se ilustrar nas provas africanas e bater a Nissan.

O Toyota Celica TwinCam Turbo era um Grupo 4 com tração traseira que foi retocado para em 1982 entrar no Grupo B.

O famoso TTE (Toyota Team Europe) não pode fazer muito pelo Celica, exceto a aplicação de um motor turbo que, imediatamente, lhe deu vantagem sobre o Nissan Silvia 240 RS.

Mas o TTE fez mais alguma coisa e a verdade é que o Celica TwinCam Turbo tinha alguns trunfos que lhe permitiram, em condições muito especiais, bater os Grupo B.

Face ao que a Nissan fez no Silvia 240 RS – pegou no Violet 169J e colocou-lhe uma nova carroçaria mais larga – a Toyota foi um pouco mais longe.

Primeiro, trabalhou o chassis para lhe aprimorar a fiabilidade e ter capacidade para encaixar a potência do motor. 

O bloco 4T-GTE tinha 2.090 c.c. e estava equipado com um turbo compressor que, imediatamente, lhe deu vantagem sobre o Nissan. A potência de 380 CV era um trunfo que derrotava o 240 RS. Porém, os 380 CV levavam o motor a um elevado esforço e na maior parte das provas debitava, apenas, 330 CV. Defesa da fiabilidade.

O maior problema foi a falta de confiança na tração integral e por isso a Toyota manteve a aposta na tração às rodas traseiras. Além disso, era um carro grande e nos pisos de alcatrão, era facilmente batido pelo Lancia 037, mais pequeno, leve e ágil graças ao motor central.

Nos pisos de terra, voltava a ter dificuldades face ao Lancia pelo que o Audi Quattro era impossível contrariar.

Impossibilitada de voltar atrás, mas já com um carro a ser burilado para as regras do Grupo B (o MR-2 que acabou por ser um nado morto), a Toyota quis apostar no maior trunfo do Celica: a fiabilidade.

Sendo desenhado segundo a tradicional engenharia, o Celica era um carro vendido comercialmente que foi evoluído para carro de competição. Ao contrário dos carros nascidos especificamente para a competição, a fiabilidade de um carro pensado para viver dezenas de anos será sempre maior.

Ora, a Toyota foi por aí e criou um verdadeiro “tanque” que conseguia superar quase tudo. E por isso mesmo o Toyota Celica venceu seis ralis do Mundial, três Côte d’Ivoire e três Safari entre 1983 e 1986.

Contas feitas, no Mundial de Ralis, o Toyota Celica Twin Cam Turbo ganhou o Rali Costa do Marfim de 1983 (Bjorn Waldgard/Hans Thorszelius), 1985 (Juha Kankkunen/Fred Galagher) e 1986 (Bjorn Waldgaard/Fred Gallagher). Ganhou o Rali Safari em 1984 (Bjorn Waldgard/Hans Thorszelius), 1985 (Juha Kankkunen/Fred Gallagher) e 1986 (Bjorn Waldgard/Fred Gallagher).

Ou seja, apenas Bjorn Waldegard (campeão Mundial de Ralis em 1979 onde pilotou o Ford Escort RS 1800 e o Mercedes 450 SLC) e Juha Kankkunen. Piloto que foi quatro vezes campeão do Mundo (1986, 1987, 1991 e 1993) ao volante do Peugeot 205 Turbo 16, Lancia Delta HF 4WD, Lancia Delta Integrale 16V e o Toyota Celica Turbo 4WD.

As vitórias em África valeram ao Toyota Celica TwinCam Turbo o cognome de “The King of África”.

O sucesso alcançado em África foi suficiente e por isso, durante os quatro anos que o carro esteve em competição, nunca recebeu uma atualização ou evolução. Quer dizer, recebeu travões novos em 1986, mas a Toyota seguiu à risca a velha máxima “não está estragado, não repares”.

Tal como sucedeu com Timo Salonen com o Nissan Silvia 240 RS, Juha Kankkunen deu nas vistas e ganhou ralis. Tal como o seu compatriota, deu o salto para a Peugeot e venceu o campeonato do Mundo em 1986, o seu primeiro título mundial, embora envolto em grande polémica, o segundo de construtores para a Peugeot. O primeiro foi ganho por Salonen.

Contas feitas a uma vida curta, apenas 16 provas do Mundial de Ralis, o Toyota Celica TwinCam Turbo foi o mais bem-sucedido Grupo B com tração traseira, perdendo apenas para o Lancia 037. Cumpriu o seu primeiro rali nos 1000 Lagos, na Finlândia – onde Juha Kankkunen foi o 6º classificado a 11 minutos de Hannu Mikkola (Audi) – e fez a derradeira aparição no WRC no Rali Olympus de 1986 com Lars Erik Torph e Bjorn Waldegard a terminarem em 4º e 5º lugar, respetivamente, na frente de Paolo Alessandrini num Lancia Delta S4 e de Rod Millen num Mazda 4×4. Torph ficou a 30 minutos do vencedor e Waldegard a 32 minutos do Lancia Delta S4 de Markku Alen.

Para 1987, como dissemos, o TTE estava a preparar uma nova arma, o MR2 segundo as regras do Grupo B/S, mas vieram os acidentes de Attilio Bettega, de Henri Toivonen e de Joaquim Santos e a FISA acabou com o grupo B. O MR2 não chegou a competir e no seu lugar surgiu o Celica GT-Four e depois o Celica Turbo, antes da chegada do Corolla WRC, carros que foram campeões do Mundo de Ralis.

Toyota Celica TwinCam Turbo – Ficha técnica – Motor: 4T-GTE duplo veio de excêntricos à cabeça, 4 válvulas por cilindro, turbo com intercooler e injeção multiponto; Cilindrada: 2090 c.c. (conversão WRC x1.4 = 2926 c.c); Taxa de compressão: 7,1 a 8,0:1; Potência máxima: 330 – 380 CV/7500 – 9000; Binário máximo: 343 – 430 Nm/5500; Transmissão: tração traseira com autoblocante mecânico e caixa de 5 velocidades Hewland; Dimensões: Comp./Largura/Altura: 4284/1785/1410 mm; Distância entre eixos: 2500 mm; Via dianteira: 1410 mm; Via traseira: 1400; Peso: 1020 – 1110 kgs; Pneus e jantes; 185-215 R15; Travões fr/tr: discos 260/285 mm maxilas 4 pistões/264/285 mm com 2 ou 4 maxilas, em 1986 recebeu travões de 300 mm á frente.