Transporte rodoviário persiste em “estrada” com desafios no horizonte

Transporte rodoviário persiste em “estrada” com desafios no horizonte

17/02/2022 0 Por Autoblogue
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A Sociedade Comercial C. Santos promoveu, no dia 10, uma conversa digital sobre o presente e o futuro dos transportes rodoviários de mercadorias. 

Com transmissão em direto nas redes sociais do concessionário Mercedes-Benz Trucks, a mais recente edição das SocTalks reuniu representantes de um setor que passa por mudanças de vária ordem. Tecnologia, custos e contratação de motoristas são os grandes desafios à frente.

Dedicada ao tema “Transporte rodoviário de mercadorias: presente e futuro”, a conversa contou com a participação de Cristiana Maia (administradora da Transmaia), Joaquim Tavares (diretor financeiro da Transportes Álvaro Figueiredo), e Ivo Pedro (chefe de vendas Mercedes-Benz Trucks na Sociedade Comercial C. Santos). A conversa foi moderada por Carlos Moura, jornalista da revista Turbo e representante português no júri dos prémios International Van of the Year (Comercial Internacional do Ano) e do International Pick-Up Award (Pick-up Internacional do Ano).

Pressão inflacionista

Cristiana Maia salienta que 2020 e 2021 “foram anos muito desafiantes”, que trouxeram problemáticas e desafios com os quais os operadores não contavam e que “vão mudar a forma” como o setor vai desenvolver-se. “O transporte evoluiu muitos nos últimos anos em termos tecnológicos. Claramente, fazer um transporte já é muito mais do que ‘fazer’ um camião e transportá-lo até ao cliente”.

A administradora da Transmaia afirma que o setor do transporte rodoviário sofreu “impactos consideráveis”, desde logo pela questão do aumento dos custos dos combustíveis, mas também pelas infraestruturas, das portagens, da necessidade de retirarmos os camiões das principais vias de acesso às cidades. “São grandes desafios que se colocam”.

O diretor financeiro da Transportes Álvaro Figueiredo indica que os tempos mais recentes têm tido uma grande pressão inflacionista em todos os componentes de custo. Desde logo as matérias-primas, a energia e os custos de combustíveis, que estão a níveis históricos. Só no mês de janeiro houve um aumento de quase 10 cêntimos [por litro, no gasóleo]. E não há grandes alternativas porque a eletricidade e o gás também estão caros. Associado a isto, temos outros custos: os equipamentos estão a subir 15% a 20%, pneus também… Portanto, estamos num contexto muito difícil, dado que as empresas de transportes são as primeiras a receber esses impactos”. 

Joaquim Tavares salienta, por outro lado, que “há uma necessidade cada vez maior de transportes, até porque as pessoas compram a toda a hora produtos oriundos de várias regiões do mundo”. Para dar resposta a esse desafio, explica, “o setor tem de ser mais eficiente, adquirir tecnologias que lhe permita gerir bem o negócio, ter equipamentos [camiões] seguros e eficientes em termos de consumo de energia e, além disso, a peça fundamental que é o elemento humano, não só quem está na gestão de operações e da empresa, mas também quem está no camião”.

Dificuldades para contratar motoristas

Cristiana Maia acrescenta aos desafios que o setor dos transportes enfrenta o da dificuldade de contratação de mão de obra. “O motorista tem de estar apto a trabalhar com tecnologias, a dar uma boa resposta aos clientes, ser a imagem da empresa. Os motoristas, tal como o bom estado das viaturas, são a primeira imagem das empresas”.

Joaquim Tavares corrobora. “Há uma grande dificuldade em contratar, sobretudo para o transporte internacional. Muitas vezes, os motoristas não sabem o que os espera e não há aqui uma atração para a profissão”.

A administradora da Transmaia considera que também “falta informação e divulgação” daquilo que é a função de motorista. “Hoje esta profissão nada tem a ver com o que era há 10 ou 20 anos. Cada vez é mais importante que estes profissionais tenham as chamadas soft skills, isto é, não só ter a carta de condução ou o CAP [certificado de aptidão para motorista] – o que é caro obter. Por outro lado, hoje as condições e o conforto das cabines dos camiões são muito diferentes e esta profissão é, também, um desafio. Para um jovem em início de carreira, além do salário, pode conhecer outras realidades e outros países”.

Além disso, acrescenta a mesma fonte, as empresas têm de procurar dar resposta às necessidades dos profissionais. “Por norma, o motorista quando começa a carreira quer passar mais tempo fora e, depois, vai constituindo família e quer recuar e a empresa tem de ajustar e dar formação, para as pessoas se manterem o mais atualizadas possível”. 

Também a contratação de senhoras para a profissão de motoristas é um desafio para as empresas, dado que, explica Cristiana Maia, têm de quebrar barreiras. “Até pelas características dos camiões, cada vez há menos diferença entre ser um homem ou uma mulher a conduzir. É tudo uma questão de as pessoas quererem abraçar esse desafio? Por que não? Porque sim. E a Transmaia orgulha-se de ter várias senhoras motoristas. A empresa tem que se adaptar, também, àquilo que é a vida do motorista”. 

Joaquim Tavares, que sublinha que a Transportes Álvaro Figueiredo também conta com senhoras como motorista, concorda que as empresas têm de adaptar-se e comunicar melhor os aspetos positivos da profissão e brinca com as semelhanças com o programa Erasmus para universitários. “Para jovens ainda sem família constituída”, destaca. 

Quanto a outros fatores da atratividade para a profissão, a mesma fonte realça a necessidade de “uma formação mais profissionalizante” e de haver mais atenção “aos custos de entrada”. Já depois “os custos de manutenção, como por exemplo a renovação do CAP, já são, por norma, as empresas que asseguram”. Por outro lado, o diretor financeiro da Transportes Álvaro Figueiredo realça que a profissão é mais bem paga do que outras.

Camiões autónomos e platooning ainda distantes

Uma das vias apontadas pelos especialistas para, no futuro, reduzir as dificuldades de recrutamento de motoristas serão o transporte em camiões autónomos e o platooning (comboios de veículos que circulam juntos e coordenados para reduzirem a resistência aerodinâmica). Joaquim Tavares vê essas tecnologias como um complemento possível no futuro, mas avisa que ainda são algo de longínquo. “Mas são soluções que deverão ser desenvolvidas”.

Cristiana Maia está de acordo. “Tanto a condução autónoma como o platooning obrigarão a mudanças nas estradas portuguesas. Talvez uma solução possa ser a criação de corredores específicos. Contudo, tenho dúvidas de que o motorista deixe de ser necessário, não obstante o desenvolvimento dessas soluções possa ser importante, assim haja apoios ao setor”. 

Marcas trabalham soluções

O chefe de vendas Mercedes-Benz Trucks na Sociedade Comercial C. Santos destacou que marcas oferecem cada vez melhores soluções aos clientes tanto em termos tecnológicos como de eficiência energética. “No caso da Mercedes-Benz Trucks, por exemplo, os tratores de [transporte] internacional sairão de fábrica, a partir de outubro, com atualizações a nível de cadeia cinemática que farão com que haja até 4% de poupança de consumo de combustível”.

Ivo Pedro salienta que, além disso, as marcas estão a fazer uma aposta na conectividade, “não só em termos de monitorização das viaturas por parte dos clientes, mas também ao nível de obtenção de informação para montar planos de ação a nível de motoristas, pneus e vários outros fatores que podem influenciar a rentabilidade do transporte”.

Isto além da eletrificação, que está a levar à procura de alternativas aos combustíveis fósseis. “Esta é uma parte mais difícil, que tem custos elevados, dado que essas novas tecnologias são caras de desenvolver, mas tem de ser feito. No caso da Mercedes-Benz Trucks, tem em desenvolvimento um camião a hidrogénio e em testes um camião de distribuição elétrico a bateria”.

Também do ponto de vista da facilidade de utilização dos veículos os construtores estão a fazer o seu caminho, de acordo com o chefe de vendas Mercedes-Benz Trucks na Sociedade Comercial C. Santos. “Nos nossos modelos, por exemplo, em muitos cenários de condução basta colocar o cruise control a 90 km/h e o próprio veículo ‘sabe’ que daí a 1 km há uma subida e faz a melhor gestão possível da circulação”, exemplifica Ivo Pedro, antes de clarificar que “no que as marcas não podem fazer muito” é no acesso à atividade e que vai muito além da carta de pesados, obrigando a ter outras formações e licenças”.

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