Miguel Oliveira fez a última “Diabolique” curva da vida 

Miguel Oliveira fez a última “Diabolique” curva da vida 

22/02/2022 0 Por Autoblogue
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Gigante com um bigode frondoso e educação extrema forjada por férrea educação materna. Visionário disfarçado de apaixonado pelas corridas, marcou a ferro quente uma geração dos ralis nacionais. Miguel Oliveira tinha 83 anos e deixou-nos hoje.

Olhar para o “Dr.” como carinhosamente era conhecido na família dos ralis nacionais, deixava-nos envergonhados. Lembro com carinho o autocolante da Diabolique que me ofereceu no Autódromo do Estoril e a sua extrema educação. 

Era um visionário que vestia a capa de “petrolhead” e de amante do desporto automóvel. Foi ele quem deu o pontapé na lata e virou as coisas do avesso nos ralis nacionais.

Branco, vermelho, dourado… eis a Diabolique

Trazendo para a competição a marca de perfumes Diabolique, ficaram famosos os carros decorados de branco, vermelho e dourado e as letras “diabólicas”. Trouxe para Portugal automóveis com uma qualidade pouco vista entre nós. Falamos dos Ford Escort RS 1800 do grupo 4 e também de grupo 2, o Ford RS 200 do Grupo B, ou ainda o Ford Sierra Cosworth. Não esquecendo os Porsche 911.

A Diabolique Motorsport foi construída sobre uma base sólida que foi esculpindo um palmarés de excelência. Miguel Oliveira estreou-se com um Mini Cooper S, mas rapidamente passou para o banco do lado direito. 

José Avelino Gonçalves usou, em 1978, um Porsche 911 (HG-39-89) adquirido por Miguel Oliveira e Miguel Correia, o primeiro da ainda insípida Diabolique. O mesmo carro, em 1980, exibia as cores da Diabolique, em estreia, e José Avelino Gonçalves, acompanhado por Pina de Morais, mostrou o vermelho, dourado e branco da equipa de Miguel Oliveira. Não foi feliz e abandonou com problemas mecânicos.

A ligação de Miguel Oliveira e da Diabolique à Ford

A Ford passou a fazer parte da história da Diabolique em 1980 com o Escort RS 2000 de grupo 1 (BT-56-18), pilotado por Rafael Cid e por Miguel Oliveira e pintado de vermelho, dourado e branco. Estreado no mesmo rali em que participou o Porsche de Avelino Gonçalves, o Rali James. 

No Rali da Figueira da Foz a equipa estreou outro Ford Escort RS (GS-26-07) com uma decoração única: azul e branco. Ainda nesse ano, Rafael Cid e Miguel Oliveira fizeram o Rali RAC com um Ford Escort RS 1800 (CLM 184 T) alugado a David Sutton, uma vez mais, azul e branco.   

No ano seguinte, a Diabolique manteve Rafael Cid como piloto e novo Ford Escort RS (BT-56-16). Nesse ano, Francisco Gil aproveitou para vencer o Regional Norte de Ralis com o carro que era pilotado no Nacional por Rafael Cid.

Mário Silva também passou pela Diabolique, tanto na velocidade como nos ralis, tendo ganho as duas primeiras provas do Nacional de Ralis de 1981 com o Ford Escort RS 1800 (DM-49-88), o Rali James e as Camélias. Um castigo federativo acabou com o campeonato de Mário Silva.

Joaquim Santos e Miguel Oliveira: uma dupla de sucesso

Porém, o nome grande da Diabolique em termos de pilotos foi Joaquim Santos. O extraordinário piloto estreou-se com a equipa e com Miguel Oliveira a seu lado no Rota do Sol. Ao volante do Ford Escort RS 1800 (DM-38-63), liderou a prova, mas a primeira vitória só surgiu no Douro Sul desse ano de 1981.

O primeiro título de Miguel Oliveira, de Joaquim Santos e da Diabolique surge em 1982 com o Ford Escort RS 1800 (IZ-96-28). Com oito vitórias ao longo do ano, dominaram uma temporada. Sublinhando esse domínio com o segundo lugar de Rui Souto e Pedro Perez, o segundo carro da Diabolique.

José Miguel Leite Faria foi Campeão de Iniciados Zona Norte com o apoio da Diabolique e ao volante de um Ford Escort RS (OS-88-39).

Em 1983, mudança na decoração dos Ford Escort RS da equipa, mas mantendo o vermelho, dourado e branco. Com um RS1800 grupo 4 (GU-82-90), Joaqukm Santos e Miguel Oliveira sagraram-se bicampeões nacionais de ralis com quatro vitórias e o título de “melhor português” no Rali de Portugal. Nesse ano, Joaquim Santos, com o apoio da Diaboliquem, fez uma “perninha” na velocidade no Troféu Toyota Starlet. Venceu uma corrida no Estoril e ficou em 5º na competição.

O terceiro título surgiu em 1984. Foi o derradeiro título de Joaquim Santos e Miguel Oliveira, ainda e sempre ao volante do Ford Escort RS 1800 (GU-82-90). Nesse ano, nasceu uma das maiores e melhores iniciativas de sempre para encontrar talentos. 

Chamava-se “Onde está o Ás?” e foi organizada pela Diabolique e pela Ford. Foram usados os Ford Escort XR3i.

O começo do fim

Já com muitas dificuldades para enfrentar carros mais modernos, Joaquim Santos e Miguel Oliveira fizeram das tripas coração em 1985, mas não foram capazes de revalidar o título que ficou para Joaquim Moutinho.

Miguel Oliveira manteve a ligação à Ford e em 1986 entrega a Joaquim Santos um espetacular RS200 (C440 BHV). O acidente grave no Rali de Portugal acabaria por marcar a Diabolique e a história do Grupo B, que acabou no final desse ano. Joaquim Santos ainda venceu 4 provas em 1986, mas o título foi revalidado por Joaquim Moutinho.

A Diabolique começava o seu declínio com a manutenção da ligação à Ford e a inexistência de carros competitivos da marca da oval azul. O Sierra Cosworth (JZ-27-20) com tração traseira nada podia fazer contra o Lancia Delta 4WD nos pisos de terra e Carlos Bica arrebatou o título de 1988. No ano anterior tinha sido Inverno Amaral.

Com muito trabalho no Sierra, a Diabolique ainda deu um ar da sua graça em 1990. Joaquim Santos deu muita luta a Carlos Bica. Mas não foi possível contrariar a competitividade do Lancia Delta HF Integrale do piloto de Almada.

Foram 12 anos de intensa atividade e a certeza que a Diabolique, Joaquim Santos e o “Dr.” Miguel Oliveira, deixaram marcado a quente uma página fantástica do Nacional de Ralis. 

O Doutor cantou a última nota. Fez a última curva. Partiu! Que descanse em paz!

(Foto de abertura página Facebook Diabolique; fotos do artigo fonte internet)

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